domingo, 16 de novembro de 2008

Uma rotina de violência substitui a rotina de estudos

A violência nas escolas virou rotina. Assistimos, na TV, como capítulos de uma novela em que o autor, decidido a conquistar picos de audiência, buscasse surpreender a platéia com cenas cada vez mais impactantes.

Quem diria, a escola, antes um “lugar seguro” em que alunos obedientes à palmatória e a outros castigos humilhantes, pouco ousavam levantar a voz, ainda que o objetivo fosse o de indagar para compreender...

Os métodos antigos funcionaram e, ainda que o preço tenha sido o trauma de muitos, a ordem era mantida. É fácil garantir a obediência e o respeito com a intimidação. O difícil é formar, com esse método, pessoas criativas que pensem com liberdade.

Agora, abolidos os castigos físicos e a intimidação, falta encontrar o caminho capaz de levar crianças e adolescentes a respeitar a escola, os professores, os colegas, a família. No noticiário acerca do episódio na escola de São Paulo, em que os professores se trancaram para se proteger, chamou a minha atenção uma das medidas adotadas, a expulsão, a título de castigo. Sempre estranhei esse “instrumento pedagógico” que consiste, simplesmente, em repassar o problema.

O que falta, de verdade, é dedicar ao tema a atenção merecida. Afinal, entre tantos profissionais da educação, muitos hão de ter belas idéias capazes de reverter esse quadro. Lamentavelmente, a educação é relegada a quinto plano e as escolas públicas estão a um passo do “quinto dos infernos”.

O que não é razoável é se acreditar que a disciplina e o interesse serão alcançados quando são mantidos, nas escolas, os mesmos padrões do século passado, isto após terem sido abolidos os velhos instrumentos de coerção.

Nesta semana, visitei uma escola de 1ª a 6ª e me surpreendi com uma cena bastante lamentável. Uma aluna de cerca de 13 anos se debatia com sintomas cardíacos, estirada em um sofá quebrado, rasgado, na sala da recepção da escola. Eu entrei em busca de informação e lá estava a jovem, exposta, em flagrante desrespeito ao seu direito a um atendimento em espaço reservado , enquanto aguardava o socorro médico.

Uma escola situada em área nobre de Brasília, em plena Asa Sul, sequer dispõe de uma sala para emergências. E na periferia, como será?

Mais um exemplo de violência, em escola do DF, no Blog do Luis Hipólito, do Correio Braziliense.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

ADESTRAR, DOMESTICAR, EDUCAR...

Sempre que leio, ou assisto na TV, matérias sobre adestramento de cães para que aprendam regras que facultem o seu convívio no ambiente doméstico, penso no papel que a educação exerce no “adestramento” do ser humano. Afinal, tanto o processo, que consiste em ensinar-aprender, como os objetivos de socialização e convivência, são basicamente, os mesmos.

Somos selvagens? Parece que sim e que, na falta de “adestramento”, não se viabiliza a convivência civilizada. O estudo da História mostra que, em todos os grupos humanos, desde os mais primitivos, estabeleciam-se regras e existiam valores aceitos e reconhecidos por todos, transmitidos, geração após geração. Nesses grupos, a transmissão era feita pelos mais idosos, tidos como sábios e respeitados por todos. Era um modelo de educação, um bom modelo já que se mostrou capaz de preservar a vida e de perpetuar a cultura e as crenças vigentes nos pequenos grupamentos esparsos por todo o planeta que, por séculos, constituíram a população da Terra.

Hoje, quando os grupos humanos tornaram-se sociedades complexas, quando multidões aglomeram-se nas metrópoles, mais do que nunca importa a aceitação de regras e valores. E a educação formal, que assumiu o papel dos “anciões das tribos”, deveria ocupar lugar de destaque nessas sociedades, na formação dos indivíduos.

Mas parece existir uma obliteração, ou uma obnubilação das consciências; e, que me desculpem por essas expressões fora de uso mas, traduzindo, é isso mesmo que transparece: obnubilação é a diminuição da consciência, confusão mental, incoerência; obliteração é fazer desaparecer aos poucos, fazer esquecer aos poucos.

É como estamos; anestesiados, em crise de sonambulismo, em uma espécie de transe que não nos permite enxergar onde reside o erro primordial que, se removido, solucionará todos os outros males. Enquanto isto, as escolas vem sendo transformadas em palco da violência e da deseducação, a ponto de parecer que assumiram o papel exatamente oposto ao que lhe cabe na disseminação e preservação de regras de convivência.

Entretanto, o papel da escola torna-se mais importante do que o da própria família já que se trata de reverter quadro em que, na vida dos pais, a escola esteve ausente.

Pais que migraram de suas pequenas cidades para os grandes centros, abandonando seus grupos familiares, precisaram enfrentar um mundo hostil, em que a televisão induzia mudança radical de costumes enquanto as drogas e o álcool ofereciam um sucedâneo para os dias mais negros. Famílias desestruturadas não educam. Sobra para as escolas, para o Estado, toda a responsabilidade pela formação de boa parcela desses indivíduos.

O sistema educacional não está preparado para tarefa nessa dimensão; e os professores, que sempre foram cobrados desde o tempo em que se dizia que “ensinar é um sacerdócio”, vem, efetivamente, se transformando em mártires. Recentemente, um diretor de escola foi assassinado por um traficante, e ex-aluno, aqui no DF.

Não importa se os recursos do orçamento público são escassos, ou se há crise pois quanto maior a escassez, maior deveria ser a cautela na hora de definir prioridades. É suficiente aceitar que a educação é o fator capaz de devolver a sanidade a todos, até mesmo aos portadores de distúrbios físicos. Caso contrário, essa loucura comparável a uma avalanche, que se expressa em números e estatísticas crescentes de violência, fará sucumbir o que ainda restar de civilização.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Construindo o amor ou o ódio

A investigação de crime que chocou a todos trouxe à luz o que poderia ser a motivação do austríaco que trancafiou a filha por décadas.

Embora a maioria de nos rejeite a idéia de existirem motivações para crimes onde o que transparece é a crueldade gratuita, seria mais lúcido que procurássemos pressupor sua existência e descobri-las.

Esmiuçando a natureza humana como ela é, repudiando, não a idéia de possíveis motivações mas, as tolices românticas que construímos acerca de nós mesmos ; quem sabe, não seria, esse, o caminho para ações educacionais mais conscientes que pudessem prevenir o mal futuro.

O austríaco, segundo apurado durante o atendimento psiquiátrico , trancafiara, muito antes, a própria mãe. O que ele alega: maus tratos, surras violentas, privações, ausência total de afeto, na convivência com a mãe que o criou sozinha. Dado o tempo transcorrido, provavelmente não será possível confirmar essa versão. Mas, tais fatos não são improváveis.

Conheci criaturas que, por terem sido maltratadas por pais ignorantes, reproduziram o comportamento com filhos e esposa. E, acredito que muitas pessoas tenham ouvido, e até testemunhado, histórias parecidas. O incomum, no caso do austríaco, é a extrema brutalidade. Por isto, creio que não se deveria pensar o fato como um caso isolado, lá do outro lado do hemisfério. Ao contrário, a dimensão da atrocidade praticada serviria de alerta.

O amor não é um sentimento automático, que surge entre pais e filhos, entre familiares, por força dos laços sanguíneos; precisa ser construído, dia após dia, geração após geração. E esse amor transborda, extravasa do ambiente familiar para a sociedade; da mesma forma que o ódio, cultivado entre as paredes do “lar, doce lar”.

Em recente programa da apresentadora Oprah Winfrey, esteve presente o pai de um jovem assassino: o sujeito matou a mãe e o irmão. Motivos declarados: nunca se sentiu amado, nunca se sentiu capaz frente a um irmão bem sucedido, alvo da sua inveja. E, tanto o pai como a mãe assassinada, nunca notaram que tinham um filho problemático.

Temos assistido a violência crescente dentro de nossas escolas, onde jovens de 13, 14 anos agridem professores, agridem-se entre si, matam-se depois de combinar tudo pelo site de relacionamento Orkut. No entanto, o acesso ao Orkut implica em declarar a maioridade de 18 anos. Onde estariam os pais?

Nossas ações educacionais, no lar e nas escolas, não estão produzindo o resultado desejado e os atos de selvageria vem se alastrando sem que nenhuma providência efetiva esteja sendo adotada, ou exigida pela sociedade. Somente nos indignamos, quando atos de crueldade mais extremada chegam às manchetes. Depois, seguimos com as nossas rotinas.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Amor, serotonina, dopamina...

Sinto-me bastante perplexa com a facilidade com que muitos de nós classificam seus distúrbios de personalidade, ou seus instintos biológicos, com uma única palavra, que não faz parte da terminologia médica, mas que, no dicionário, é descrita como um substantivo abstrato utilizado para designar o “mais nobre dos sentimentos”, o amor.

Eu ando bastante enojada do “amor”.

O “amor de mãe”, ultimamente, tem feito muitas vítimas entre criaturas que mal chegaram ao mundo. E a culpa de tudo é do tal do “amor romântico”. Se as mulheres enxergassem a realidade da sua condição, pensariam 1000 vezes antes de se “apaixonar”. Apaixonar-se, para muitas, equivale a negligenciar a si mesma, aos seus planos a ponto de deixar de se proteger para evitar uma gravidez indesejada, uma doença, ou ambas as situações.

A desculpa do “amor” se presta a toda sorte de mesquinharias; trai-se por amor, abandona-se por amor, deixa-se de lado responsabilidades e compromissos por amor... mata-se por amor.

Essa espécie de amor deveria ser repelida, condenada tanto quanto o ódio e outros sentimentos de que não nos orgulhamos. Mas é difícil distinguir; estamos por demais habituados a alimentar nossas vidas com esse mito que criamos em torno do “amor”. A tal ponto que muitos afirmam que precisam “amar” sempre para se sentirem vivos. Mas a que espécie de amor estariam se referindo essas pessoas? Talvez o que falte a elas seja, somente, algum componente da química cerebral responsável pela sensação de felicidade e bem-estar: serotonina, dopamina...nada que a Medicina moderna não possa resolver.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Sem educação, saúde e segurança são inalcançáveis

Meu tema, aqui, é quase sempre, a educação. Então, por que o título, “a saúde vem da alma”? E, por que a saúde viria da alma?

Porque, sem educação básica, a saúde é uma farsa, mera manutenção de parco equilíbrio, limitado ao corpo físico, a custa de medicamentos e de exames, onde a saúde mental e emocional, os hábitos, a cultura de cada um, não contam. Porque a educação é capaz de promover uma auto-aproximação: faz com que cheguemos mais perto de quem somos de fato.

Quando a cabeça não pensa, o corpo padece, sempre afirmaram os mais velhos, sabiamente. Sem conteúdo, ficamos a mercê das aparências, consertando a “máquina” em seus revestimentos, deixando de lado o que interessa de fato: nossos verdadeiros sentimentos, nossos reais talentos e interesses, nossos valores... Essas coisas abstratas que residem em nossa espiritualidade, que parecem distante e que, no entanto, são determinantes em nossa saúde, em nossa aparência física; fazem a diferença no plano individual e no plano coletivo.

No passado remoto, quando os habitantes do planeta constituíam grupos esparsos, separados por milhares de quilômetros e vivendo do que a terra produzia, talvez a educação não fosse tão relevante. Relevante era sobreviver. Agora, que somos bilhões, a maioria amontoados nas grandes cidades, relevante é saber conviver, é saber preservar recursos e espaços cada vez mais exíguos. A educação, então, ganha a mesma importância que o arroz e o feijão. E está à frente da saúde e da segurança.

Quantos policiais seriam necessários para manter a segurança na presença de turbas deseducadas? É possível, ao estado, prover segurança satisfatória quando a educação é relegada e quando, nas escolas, professores são alvo de violência física e psicológica?

Como prover a saúde de milhões de analfabetos funcionais? Analfabetos funcionais, sem acesso à informação de qualidade, refém de valores duvidosos ditados por propagandas que induzem ao consumo desenfreado, à exacerbação da sexualidade... Refens de maus religiosos que usam a Bíblia e o nome de Deus para subjugar os mais fracos...Como garantir saúde emocional e mental e evitar a formação de "quadrilhas", a partir desse exército de pessoas mal-formadas? Os atos de selvageria crescem, a cada dia, em quantidade e em crueldade.

Ainda assim, muitos brasileiros bem formados tendem a acreditar mais nas soluções de segurança em detrimento da educação. Precisamos acordar já que, nem no interior de nossas casas, encontraremos segurança se não soubermos conviver e ensinar a conviver em bases fraternas e de respeito mútuo. A falta de educação mata.

Existiria civilização sem educação?

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A falta de educação mata

Acho espantoso que tantas crianças e jovens estejam sendo vitimados pela violência. Acredito que o assunto já deveria ser alvo de medidas especiais por parte das autoridades de saúde e de educação do país, porque todo esse excesso revela que a questão já ultrapassou a esfera policial; é praticamente, uma epidemia.

Não me julgo um modelo de mãe; e nem teria a pretensão de ditar regras de bem educar, mas observo que os pais talvez estejam se deixando “conduzir” pelos filhos, por modismos típicos da adolescência; talvez queiram parecer modernos, descolados, sem preconceitos... Sempre que vejo, no noticiário, acidentes fatais envolvendo meninos e meninas entre 16 e 18 anos, quando retornavam da balada, às 4 da matina, me pergunto: como assim??!! E meninas namorando aos 12 anos?

Os pais estão precisando de socorro para que possam socorrer seus filhos ou, até, para não deixá-los nascer antes que tenham maturidade para zelar por eles. Afinal, engravidar, não pode ser algo automático, sem compromisso, sem noção da responsabilidade que é prover a segurança e a integridade de terceiros.

Quase que semanalmente, lemos notícias em que pais, principalmente mães, trancaram filhos em carros, ou em casa, e foram para a balada. Depois, sempre se diz, em defesa de quem abandonou, que “é uma boa mãe...”.

O pior, mesmo, são os crimes horripilantes praticados por pais, em dupla ou não... Recentemente, viu-se aquela mãe de São Paulo alegar que não socorreu os dois filhos, evitando que fossem mortos pelo pai, porque já estava em outro relacionamento em que tinha mais quatro filhos!! Então, é simples assim, dar vazão aos instintos sem qualquer controle, gerar filhos e atirá-los ao inferno.

Que me perdoem as feministas, mas sobra para a mulher, que gera e carrega, a parcela maior de responsabilidade com a vida. Para que não usufruam, irresponsavelmente, a liberdade recém-conquistada, como os homens sempre foram estimulados a fazer, precisam ser cobradas com campanhas educativas honestas, que mostrem os fatos como eles são: somente a mulher sabe com certeza quem é o pai do filho que carrega. E, quando se permite o viver promíscuo que caracterizou, até recentemente, o comportamento masculino, precisa estar preparada para possíveis conseqüências. Até porque, tendo, ou não certeza, ela é quem terá que segurar a situação, enquanto transcorre uma ação na Justiça e até que saia o resultado de um exame de DNA. Talvez por isto, algumas estejam atirando recém-nascidos à lixeira, como é mostrado no noticiário dos jornais.

A mulher não é, mesmo, igual ao homem; e esse é um fato biológico. Mas, a mulher de baixa renda vive presa a uma armadilha que lhe é imposta pela falta de educação. É a falta de educação que a escraviza, que a deixa refém de romantismos baratos, de modismos onde o erotismo é explorado exaustivamente, inconsequentemente. A falta de educação mata! Sem educação, saúde e segurança são quimeras...

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Um universitário vale oito vezes mais que um estudante de 1º grau

Estive na clínica da Faculdade onde a minha filha cursa Odontologia. Olhando pelas portas semi-abertas dos consultórios, diviso salões com dezenas de boxes, devidamente equipados para proporcionar, ao aluno, a atividade ensino-aprendizagem e, ao paciente, o atendimento.

Quanto teriam custado aquelas instalações? Quanto custariam os serviços de manutenção dos equipamentos e de limpeza dos ambientes que permitem o pleno funcionamento? O preço da mensalidade, eu sei: R$1.500,00.

São centenas de universidades públicas, pelo Brasil afora, muitas com faculdades de Odontologia. Não vejo sentido nesse nosso modelo que investe tanto na educação superior, naturalmente mais cara, enquanto o ensino fundamental, obrigatório para todos os brasileiros, é tão carente de boas instalações, de recursos didáticos atrativos, de mais horas em atividades extra-classe.

O Brasil gasta cerca de R$2.488 por estudante, segundo estudo realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico; é o que menos gasta, entre 34 países; e gasta mal, R$ 17.000 por estudante universitário e R$2.213 por estudante primário, o que representa uma distorção inexplicável, mas que dá bem a medida do elitismo imbecil que permeia a nossa cultura. É o único país em que essa distância de custos, entre os dois níveis de ensino, se mostra tão violenta.

O que seria mais importante para o país? Formar dentistas e médicos (médicos e dentistas que me perdoem) em universidades públicas ou manter as crianças em boas escolas, em turnos mais longos, longe dos apelos do mundo do crime e da violência?

Sem educação de qualidade, resta investir em presídios de segurança máxima. E em muitos hospitais. Afinal quem se tornaria capaz de prover cuidados a si mesmo se não receber a informação adequada ministrada por mestres bem preparados?

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Panaceia

Já vi pessoas afirmando que “...a educação virou panacéia, tida como remédio para todos os males...”
A educação é, sem dúvida, o remédio para todos os males. Quando o noticiário mostra esse número escandaloso, 28 bilhões nas contas dos custos com os acidentes de trânsito; quando vemos os números do subemprego, do trabalho infantil, do trabalho escravo, das reprovações nos exames da OAB, da eleição de parlamentares que devem à Justiça, quando vemos os números dos desatendidos no SUS, da violência nas escolas, da delinqüência juvenil ... Tudo passa pela educação.

Recentemente, soubemos de um prefeito e sua filha, mancomunados no mesmo crime: exploração do trabalho escravo. E pela TV, a toda a hora, notícias dos incêndios provocados por queimadas. E notícias de policiais que traficam, de juízes que vendem sentença...

Não, a educação não é panacéia. É um bem que, quem possui verdadeiramente, passa a detentor de respeito próprio. E de respeito aos outros que o torna incapaz de tamanhas irresponsabilidades para com a sociedade de que faz parte. Afinal, quem há de querer trabalhar contra si mesmo? A palavra bíblica de sabedoria proferida por Jesus, “Não façais ao próximo...” é compreendida em sua dimensão mais ampla: o que faço contra os outros, em última instância, volta-se contra mim. Não é moralismo; é uma lei de que não se pode fugir. Mas, o ignorante não a compreende, não a alcança. Acredita que, tocando fogo ali, está queimando o que é seu (seu?), e daí?

Há, também, os doentes. Mesmo para esses, a educação é remédio já que, pelo condicionamento, poderão obter um certo nível de controle quanto à satisfação egoística de suas vontades.

Esses “doentes”, é óbvio, precisariam de cerceamento. Em lugar disto, muitos ocupam cargos públicos e passam a ter poder sobre os outros! Aí, sim, há um problema potencializando a falta da educação; e que a educação, por si só, não resolverá. Pessoas sem formação, psiquicamente doentes, ocupando posições de mando na sociedade: policiais, juízes, parlamentares, ministros das altas cortes ... Esses “traidores” comprometem o esforço de todos os demais cidadãos. Merecem punição exemplar: a pena que caberia a qualquer outro deveria, para tais, ser em dobro. Afinal, que pena merece o policial que aluga, por R$50.000, a viatura policial? Ou o que informa data e hora da incursão policial na favela, pondo em risco a vida de colegas e da população local?

E quanto às “doenças”? Tratá-las, se de fato existirem, aproveitando, o espaço de tempo em que esses “traidores” estiverem fora do convívio social.

E quanto economizaria a nação, investindo mais em educação? Menos feridos a bala, menos doentes crônicos e mal-nutridos no SUS, menos mortes no trânsito e inválidos dependentes da Previdência, menos criminosos superlotando as cadeias, menos crianças abandonadas, mais controle da natalidade...

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Tristeza dupla

Mais um crime envolvendo extrema crueldade. Ao longo de uma semana, o Jornal “O Globo” publicou série de reportagens sobre o drama da população de periferia (favela e arredores) que vive sob à ditadura do tráfico. E, logo após, noticiou o seqüestro de um dos entrevistados, um líder comunitário cujo corpo foi encontrado, dias depois, esquartejado e carbonizado.

As suspeitas recaem sobre milicianos (milícias compostas por policiais) que haviam sido denunciados pelo líder morto por extorsão.

Há alguns meses escrevi, aqui, um desabafo (“Crueldade inata?”) para dizer que me recuso a aceitar a teoria dos que querem "condenar" seres humanos indefesos que crescem nas ruas, como vira-latas, sem acesso à educação. Afinal, se qualquer plantinha precisa de um mínimo trato para crescer saudável, o que dizer das crianças... É irracional esperar que o futuro, por si só, venha engendrar “gente boa” a partir dessa semeadura que se faz: desamparo, desamparo e desamparo. Não seria justo que a sociedade que desamparou e, portanto, forjou o delinqüente, simplesmente opte por “despachá-lo”.

É nesse meio, sob esse terror e crueldade, que as crianças da periferia do Rio de Janeiro estão crescendo: assistindo esquartejamento, que é a pena praticada nesse “estado paralelo”. Eu me lembro de uma matéria que li, há alguns anos, em que uma testemunha do caso Fernandinho Beira mar, narrou essa prática contra um jovem que se atrevera a namorar uma das mulheres do traficante: os restos do corpo foram colocados em um carrinho de mão que foi conduzido pela favela a fim de exemplar e intimidar os habitantes da comunidade.

Leio esse noticiário e lembro-me da minha infância, quando as mulheres da família, muito sabiamente, afastavam as crianças sempre que iam matar alguma criação... Hoje, enquanto os filhos da classe média assistem as mortes de seres humanos na TV, os da periferia não só assistem na TV... Mas são expostos, perseguidos, maltratados, seja pelo tráfico, pelas milícias e pela própria polícia.

Enquanto isto, Renam é absolvido. Luto: pela morte do líder comunitário que sequer mereceu a proteção que lhe devia o Estado, após a denúncia que fez. Luto: pela morte do Senado Federal.

domingo, 2 de setembro de 2007

O lixo e a "zelite"

O cineasta Felipe Lacerda, em entrevista à Revista da TV, "O Globo" deste final de semana, fala de seu documentário sobre Cuba, conta de sua estadia naquele país, das contradições surpreendentes que viu: para ter um telefone, é preciso pedir autorização ao Governo. Em compensação, até o lixeiro conhece Tolstoi, todos têm acesso à escola, aos médicos ... E eu, ainda ontem, ironizava Fidel, sugerindo que se estivesse à frente do império americano, com as restrições que impõe ao consumo, solucionaria metade dos problemas ambientais do planeta.

Mas, agora, falando sério: “liberdades amplas e irrestritas” (seja, lá, quanto ao que for, em que lugar for), seria um projeto viável?

Liberdade não pode ser sinônimo de esculhambação. O Consumo exagerado, a ingestão de alimentos à exaustão, logo convertida em esgoto, o desperdício da água tratada que todos nós, todos os dias, mandamos para o ralo ... toneladas de alimento atiradas ao lixo por falta de políticas de vigilância sanitária que disciplinem a doação de sobras ...

A “zelite” precisa, realmente, assumir o papel que lhe compete quanto às toneladas de lixo que gera. Brasília, por exemplo, é campeã. E, olha, não se trata do lixo moral, gente... Não é uma metáfora, ao estilo do Lula rsrsrsrsrsrs. É lixo mesmo. Brasília tem, também, a mais alta renda per capta do país. Na medida em que, por aqui, se ganha mais, o desperdício também é maior.

Segundo dados do Instituto Aqualung, “...Somente nos Estados Unidos são gerados 200 milhões de toneladas de lixo por ano, uma média de 725 quilos por habitante. Mesmo quando comparado com a capital do Brasil, que é quem mais desperdiça lixo, esse número é alarmante. Brasília produz 438 quilos por habitante por ano. Que dirá quando comparado aos países africanos, cuja média de consumo por habitante é 40 vezes menor do que a americana. ..."

Na cidade de São Paulo, as desigualdades sociais estão refletidas no lixo produzido (dados da COMLURB-RJ):

“As desigualdades que caracterizam São Paulo também se mostram na produção de lixo por habitante. Apesar de o paulistano jogar em média 890 gramas por dia - pouco mais de 3,5 litros -, a diferença entre periferia e bairros centrais chega a três vezes. Enquanto o morador de Guaianases despeja cerca de 0,5 quilo num dia, quem vive na região da Subprefeitura de Pinheiros joga 1,5 quilo de resíduos. Essas referências foram usadas pela Prefeitura na primeira distribuição de boletos da taxa de lixo, com sugestões da produção média e do valor a ser pago.”

Portanto, a “zelite”, incluindo o Presidente Lula e a turma do PT (que não se assumem como tal mas, de fato, o são) precisa se mancar, usar a educação que recebeu, em proveito próprio e dos outros. E eu também me incluo, sem hipocrisias.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Liberdades não tão amplas...

A obesidade do americano revela o quanto vai mal de saúde aquela nação tão próspera! Carências materiais podem não ser tão devastadoras para a saúde global quanto é a abundância, o exagero no consumo. Em entrevista à Revista Veja, em fevereiro de 2006, o Demógrafo americano Paulo Ehrlich, é bastante alarmista na avaliação que faz desse assunto:

“ Com o cenário atual, o mundo pode até suportar durante algum tempo o padrão de vida dos americanos. A chegada de bilhões de chineses e indianos a esse mesmo nível de consumo levará a conseqüências devastadoras para o meio ambiente e para a qualidade da vida na Terra. Será um teste aos nossos limites. ... os governos devem intervir para limitar a venda de produtos cujo consumo excessivo leve a prejuízos para o meio ambiente. Eu começaria pelo aumento dos impostos sobre a gasolina e os itens produzidos à base de petróleo. Impor alguma regulamentação nesse campo é uma questão de sobrevivência da espécie. Em segundo lugar, é preciso que os governos também estimulem os cidadãos a promover uma mudança de hábitos. A redução do desperdício de recursos naturais no dia-a-dia seria um bom começo. Há números impressionantes nesse campo. Em alguns países, mais da metade da água disponível é jogada pelo ralo...”

Penso, imediatamente, no povo cubano e sua cota diária de “ração”, seu acesso restritíssimo ao que quer que se denomine “bens de consumo”. Que tal colocar o Fidel em Manhattan? kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Quando relembro o modo como criei os meus filhos, muita sobriedade, muita austeridade, ditada pela necessidade e por informações a que fui tendo acesso na medida em que lutava com doenças alérgicas que acometia dois deles... Que bom que tenha sido obrigada a conviver com certas restrições. Enlatados e refrigerantes nunca freqüentaram a minha dispensa. Iogurtes? Uma vez por mês, nas compras mensais, para acomodar as cobranças deles. Embutidos? Nunca!

Há 15, 20 anos, não havia espaço, como agora, para a discussão dessas questões ambientais e para essa visão de saúde. E qualquer tentativa nessa direção, qualquer discurso era rechaçado, ridicularizado... Quanta coisa mudou em tão pouco tempo! Apesar do alarmismo do Dr. Ehrlich, há muito o que comemorar.

sábado, 25 de agosto de 2007

Comer pouco faz bem à saúde! E o planeta agradece.

Apesar de escolher esse tema, de modo exclusivo, para tratar em um blog, não sou uma hipocondríaca! Muito ao contrário. É que sempre me espantou ver os caminhos que tomava a saúde, com um arsenal de remédios e exames, desde quando meus filhos eram ainda crianças e eu freqüentava os pediatras para monitorar o desenvolvimento deles.

Mas, vejo com satisfação, que apesar dos dogmas dessa ciência, há melhoras e já se reconhece o poder de outros efeitos, além dos medicamentos, sobre o corpo. A nutrição avança e, se a classe médica permitir, o nutricionista desempenhará papel importante na manutenção da saúde.

Resultados de pesquisas freqüentam o noticiário, a cada semana, alguns animadores, outros remetendo a dias sombrios... Chama a atenção esse último, que afirma que se alimentar de forma moderada, comendo pouco, pode prolongar a vida.

De imediato, lembrei-me de criaturas que ganharam as manchetes nacionais por afirmar ser possível sobreviver alimentando-se de luz! Mas, quem freqüenta, sempre, as minhas lembranças é uma excelente professora de História Antiga e Medieval, dos meus tempos de universitária, que nos falava dos nossos ancestrais neolíticos, que se envenenavam enquanto aprendiam o que era próprio ou impróprio para a alimentação.

Ancestrais neolíticos???!!! Até agora, continuamos no processo de aprender; aliás, mal começamos. Ainda ridicularizamos os que são mais seletivos e cuidadosos com o que ingerem, ainda insistimos na idéia de que, estando doentes, devemos comer mesmo que a ingestão cause repulsa!

E, não fossem suficientes os danos à saúde, quanto mais comemos, mais lixo produzimos, mais poluímos o planeta.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Paciente ou Agente?

Acredito, completamente, que sou um ser dotado de uma alma, que as aflições do corpo têm origem alhures, que as minhas maiores aquisições, as que realmente importam, são as que passam a fazer parte desse meu eu mais remoto. Nada a ver com o corpo, um fantástico instrumento, um veículo sem o qual esse eu remoto não poderia se manifestar, é verdade; mas, ainda assim, não deveria ser visto além do que é realmente, um veículo.

Os atletas participantes das Para-olimpíadas nos deram amostra disto. É a chama da vida que os sustenta que torna possível que realizem as façanhas que assistimos. E também os nossos atletas “normais”, fazendo do corpo o serviçal que ele, de fato, deve ser, obediente ao comando da vontade de quem o habita.

Daí, o meu inconformismo diante do ainda persistente tradicionalismo das ciências da saúde. Principalmente com uma realidade como é a nossa, onde o Sistema Único de Saúde não consegue cumprir o papel constitucional de prover assistência a todos os brasileiros. Não seria mais barato orientar as pessoas para os cuidados básicos de saúde? Não seria mais barato reconhecer a inteligência de cada um, falar à inteligência de cada um, atenciosamente? Mas, o que se vê, nas rotinas de atendimento? Um médico postado como se pudesse ter todas as respostas, como se pudesse ter a cura para todos os males, receitando, receitando e receitando. Ouvir? Não há tempo.

O paciente, na verdade não o é; mas é, de verdade, o agente da sua própria saúde. A palavra paciente deveria ser abolida do vocabulário médico. A educação, desde os primeiros anos de vida, deveria estar voltada para a conquista de uma maior autonomia das pessoas em relação à sua própria saúde. Principalmente considerando esses novos tempos de internet e google, que permitem a qualquer leigo decifrar os diagnósticos e as prescrições médicas mais misteriosas.

Desde que o “paciente” tenha sido mobilizado, pela educação, para se tornar um agente que use essas conquistas modernas com o melhor proveito... Desde que o “PC antipedagógico”, citado pela Giulia, não se constitua em obstáculo ao aprendizado, convertido em passatempo com “viagens” ao orkut, ao site da Barbie, sem orientação ao educando e sem treinamento ao professor ... Desde que se leve a educação a sério ...

domingo, 19 de agosto de 2007

Capeta? Tô Fora!

Li, agora mesmo, no “O Globo”, as conclusões do cientista social, Bernardo Sorj, quanto aos efeitos da Internet na Política brasileira: blogs e sites reforçam as crenças das pessoas que tendem a manter suas opiniões e se reúnem, no meio virtual, segundo padrões preexistentes. Preconceitos e estereótipos?

Segundo essa avaliação, quem lê José Dirceu não lê o blog do Cesar Maia, etc., etc. Quem lê o Reinaldo Azevedo, não lê o pensamento dito de esquerda?? Eu leio. Mas vejo que, efetivamente, muitos se comportam como os adeptos de religiões onde são induzidos, pelos próprios líderes espirituais, a não freqüentar outros credos, que seriam coisa do demo.

Minha filha contou-me sobre conhecidos seus que foram expulsos da Igreja Sara Nossa Terra porque desobedeceram a ordem de não ir a uma outra igreja de denominação evangélica. Fora do espaço das igrejas, livre do medo de ir para o inferno rsrsrsrsrs, por que agiríamos de maneira tão auto-limitadora? Que falsos líderes pretendam manipular e subjugar, é compreensível. Mas, por que tantos aderem assim, tão prontamente?

No meu último post, lá se vão cinco meses, registrei a minha estranheza declarando que “odeio rótulos”. A moda, hoje, é taxar de direitista e reacionário todos os que criticam o Governo Lula, cujo lema, ameaçador, parece equivaler ao de certas denominações evangélicas: “...ou você congrega aqui ou está com o capeta!”

Uma educação bem conduzida propicia a liberdade de pensar; porque a liberdade de pensar, de descobrir e de formar conceitos próprios é um fator de saúde que vai muito além do corpo.

sábado, 3 de março de 2007

Odeio rótulos: esquerdismo... reacionarismo...

O debate, entre os que tratam a questão da criminalidade com um olhar mais amplo e os que entendem que com uma legislação mais dura o problema estaria resolvido, continua. E não se chegará a um termo. Procura-se confundir a discussão atribuindo-se um viés ideológico aos que são contrários à redução da maiorididade: são uns "esquerdistas" insensíveis ao sofrimento das vítimas de violência.

Em décadas passadas essa era uma acusação corrente. Quem quer que defendesse programas de caráter social era taxado de comunista, perseguido, preso, torturado e morto. Não importava o que estivesse em jogo, fosse a defesa de uma politica habitacional, de educação e de saúde, fosse no sentido de mostrar que um ambiente de trabalho seguro e salubre era garantia de melhor produtividade, não importava, tudo era jogado na mesma lata de lixo, com o mesmo rótulo: comunistas.

Se, naquelas décadas, tivessem sido acolhidas as idéias coerentes e lúcidas dos que defendiam, por exemplo, programas habitacionais para população de baixa renda, a reforma agrária e a educação de qualidade em escolas públicas, não enfrentariamos, agora, os resultados da favelização das grandes cidades brasileiras a partir da intensa migração campo-cidade.

O incrível é que não se tenha aprendido a lição. O muro de Berlim caiu, o império soviético desmembrou-se, a China comunista virou capitalista mas há pessoas que insistem no mesmo discurso, velho e carcomido, que opõe "esquerda x direita", "comunismo x capitalismo".

O capitalismo venceu mas, para se sustentar e progredir, terá que absorver lições trazidas pelo socialismo. Ou será que alguém acredita ser possível manter os padrões brasileiros de exploração do trabalho assalariado, de analfabetismo, de brutal concentração de renda, de ausência de serviços de saneamento básico capaz de infestar o meio urbano de epidemias das quais nem os ricos poderão escapar? Será que há quem acredite ser possível retornar aos velhos padrões de trabalho dos tempos da revolução industrial, na Inglaterra? Ou manter os padrões do servilismo da época medieval? E que, mantendo-se esses padrões, tudo ficaria assim, sem gerar consequências, todos acomodados na mais pacífica convivência, sendo suficiente construir mais prisões, mais prisões e mais prisões...

Penso que se, realmente, houver criaturas que acreditam poder ressuscitar o comunismo e criaturas, outras, que pensem poder ressuscitar padrões do coronelismo, dito de direita, essas pessoas precisam, urgentemente, rever seus conceitos, estudando História, antiga, medieval e contemporânea e, assim, quem sabe, se situar na realidade presente, em que a gigantesca população de pobres e miseráveis é capaz de forjar milhares de "homens-bomba", pessoas que não têm bons motivos para dar valor à própria vida ou à vida alheia. Afinal, o que elas teriam a perder?