Mostrando postagens com marcador bíblia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador bíblia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de abril de 2013

O racismo retratado na literatura e na Bíblia requer contextualização

Recentemente, movimentos sociais de defesa dos negros se manifestaram contra o uso, nas escolas, de obras do escritor Monteiro Lobato, em razão de um suposto cunho racista.  

Muitos se exaltaram contra esses movimentos e em defesa da liberdade de criação, em defesa da obra de Monteiro Lobato...E se equivocaram pois não se tratava de censurar uma obra literária mas de avaliar a adequação do seu uso em sala de aula.

A rigor, nem seria apropriado o uso do termo "racista" para qualificar obras que, escritas no início do século XX,  retratam atitudes corriqueiras no contexto pós-abolição, quando era outro o ordenamento jurídico brasileiro.

Mas é fundamental reconhecer que a fidelidade do autor, ao retratar os costumes da época, como faz  Monteiro Lobato, requer o suporte de uma proposta pedagógica visando a discussão desse contexto, sempre que se adote obras escritas no período. 

Evidentemente, a intelectualidade e os políticos da primeira metade do século XX eram, explicitamente, racistas, com raríssimas exceções. Esse fato não pode ser ignorado pois a personalidade, os valores, os princípios dos autores vão permear a obra. Portanto, será necessário contextualizar.

Nada há, no conto "Negrinha", que denote uma intenção do seu autor, Monteiro Lobato, de denunciar o comportamento escravocrata da patroa que maltratava a personagem-título, uma criança de sete anos. É, simplesmente, um relato, um conto que retrata um período em que as coisas eram como eram. A denúncia, então, precisa ficar por conta de quem orienta a leitura, mostrar que o país, deliberadamente, vem se desvencilhando desse passado vergonhoso, em que era lícito maltratar criancinhas negras.

Foi por essa razão que os Mestres em Educação Antonio Gomes da Costa Neto e Elzimar Maria Domingues pleitearam, junto à CGU, dentre outras providências, "...a suspensão da  distribuição da obra e de aquisições posteriores...".

Alegam, em petição datada de 25/09/2012, que não foram atendidos os requisitos ditados pelo Ministério da Educação para a execução do Programa Nacional Biblioteca na Escola - PNBE uma vez que a obra selecionada, ou seja o conto "Negrinha", não se fazia acompanhar da biografia do autor e contextualização:
"A biografia do(s) autor(es) deverá ser apresentada de forma a enriquecer o projeto gráfico-editorial. Ela deve promover a contextualização do autor e da obra no universo literário. Igualmente, outras informações devem ter por objetivo a ampliação das possibilidades de leitura, em uma linguagem adequada aos jovens, e com informações relevantes e consistentes."
Observaram, os Mestres, que no lugar desses requisitos, constou, apenas, uma apresentação da obra com a seguinte afirmação:
"Trata-se, portanto, de um conto que põe por terra a ideia de um Monteiro Lobato racista. Aqui, ao contrário, ele denuncia de forma categórica um regime desumano que continuava na mentalidade e nos hábitos do senhorio décadas após a abolição."
O fato é que, da leitura de um trecho do conto, transparece a necessidade dessa contextualização, sob pena de se incorrer no grave equívoco de se tratar um episódio de violência contra uma criança negra com a mesma naturalidade com que é perpetrada, pela algoz, e relatada por Monteiro Lobato:
"Conserva Negrinha em casa como remédio para os frenesis. (fl. 21). Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!... Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Crocres:  mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! Gosto de dar!) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira de beliscões: do miudinho, com a ponta a unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregada: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões à uma – divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor!Era pouco, mas antes isso do que nada (fl. 21).[...] Lá quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e  matar as saudades do bom tempo."
Os autores da petição fundamentaram-se, também em trechos de cartas escritas por Monteiro Lobato que,  nos dias de hoje, constituiriam prova suficiente do crime de racismo, fosse quem fosse o seu autor:

"Mulatada, em suma. (…) País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Klux-Klan é país perdido para altos destinos. (…) Um dia se fará justiça ao Klux-Klan; (…) Tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca — mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva.”
Em carta a Arthur Neiva, Nova York, 1928
"Os negros da África (…) vingaram-se do português de maneira mais terrível, amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos  subúrbios pela manhã . (…) Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos?"
A Godofredo Rangel, 1908.
Se, em relação a Monteiro Lobato, muitos se levantaram tratando quase como uma heresia as sensatas reflexões dos movimentos de negros do país, imaginem, então, se questionarmos o texto bíblico em que o estupro, o assassinato, a matança de crianças é sugerida sem rodeios?

No entanto, valeria, para a Bíblia, as mesmas reflexões: é necessário contextualizar. Se as igrejas não o fazem por considerar o "livro sagrado" irretocável, pelo menos os seus pastores deveriam ser criminalizados todas as vezes em que utilizassem publicamente o texto bíblico para perseguir, injuriar, discriminar os diferentes, negros, judeus e homossexuais.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Na Bíblia, a "Ira Divina", o sacrifício de animais, o estupro de mulheres, a escravidão...

Precisamos decidir aonde queremos chegar, definir um alvo, um objetivo a alcançar.
O que queremos: uma sociedade pacífica ou  rumar aos dias passados em que, neste país, negros, índios e judeus eram torturados, assassinados, tudo em nome da conversão ao Cristianismo?

O fato é que a Bíblia justifica atos de barbárie para quantos queiram dar vazão a baixos instintos. Para  pessoas mentalmente desequilibradas, sádicas e psicopatas, há inúmeros versículos que autorizam  crueldades que, em nosso mundo contemporâneo, são condenadas, ainda que praticadas em cenários de guerras:
Isaías 13:15-18
Todo o que for achado será transpassado; e todo o que se unir a ele cairá à espada.
E suas crianças serão despedaçadas perante os seus olhos; as suas casas serão saqueadas, e as suas mulheres violadas.
Portanto, um estado fundamentalista, em que todos sejam obrigados a professar a mesma fé e em que as leis estejam sujeitas ao que prescreve a Bíblia, não serviria aos que almejam a liberdade e o direito de fazer as próprias escolhas; não serviria a quem repudia a violência, a intimidação, não serviria a um país em que o trabalho escravo é combatido:
"Levitico 25:44 a 46 E quanto aos escravos ou às escravas que chegares a possuir, das nações que estiverem ao redor de vós, delas é que os comprareis.45 Também os comprareis dentre os filhos dos estrangeiros que peregrinarem entre vós, tanto dentre esses como dentre as suas famílias que estiverem convosco, que tiverem eles gerado na vossa terra; e vos serão por possessão.46 E deixá-los-eis por herança aos vossos filhos depois de vós, para os herdarem como possessão; desses tomareis os vossos escravos para sempre; mas sobre vossos irmãos, os filhos de Israel, não dominareis com rigor, uns sobre os outros."
A Bíblia precisa ser vista como de fato é, um livro que, se contém prescrições para uma vida de concórdia, também apela aos piores sentimentos humanos de vingança, ódio, medo... Então, importa ser seletivo. Tudo aquilo que, na Bíblia, apontar para o confronto, para o ódio, não poderia ser pregado, propagado, porque tudo está inserido em contextos históricos e geográficos específicos! 

Poderiam ser acatados preceitos bíblicos que incitem a discórdia e o desrespeito a direitos consagrados pela moderna Democracia? Obviamente, não.

A questão é que, convivendo com os segmentos evangélicos, nota-se que a regra em voga é, exatamente, o desapreço à liberdade e aos direitos em nome da submissão ao terror e ao medo apavorante dos castigos divinos. Vide o Pastor Marcos Feliciano, que atribui a morte de John Lennon e dos Mamonas Assassinas a castigo de Deus, vide os milhares de comentários que, na Internet, atribuem, às vítimas de assassinatos e desastres, a culpa pela tragédia sofrida! Vide aqueles que, quando escapam de desastres, dizem-se presunçosamente escolhidos por Deus!

Os castigos divinos relatados na Bíblia são, de fato, assustadores. Quem vive sob o terror jamais decide livremente, quem vive sob o terror renunciou, de antemão, à liberdade. Para estes, a Bíblia precisa ser seguida integralmente e literalmente. E, para os maus dirigentes, convém os discursos ameaçadores. Afinal, quanto maior o temor maior a quantidade de adeptos submetendo cada passo ao crivo da igreja...   

Em Levítico, temos a lembrança do sacrifício de animais para aplacar a Ira Divina: se o homem pecasse, um animal morreria em seu lugar! Para os padrões de agora, sacrificar animais é algo impensável, repugnante! No entanto, persiste, para muitos, a lembrança de um tal ódio divino que somente se aplaca com a morte. Não é justo que sejamos governados, nos dias de hoje, nesse padrão de horror que os evangélicos denominam com um eufemismo: temor de Deus. Eles nem ousam pensar porque, pensando, já estariam pecando.

Vivemos sob uma Constituição que garante a todos viverem segundo as próprias crenças... Logo, se preferem o medo à liberdade, é um direito que têm... Desde que não queiram submeter os demais cidadãos, aqueles que prezam a própria liberdade e capacidade de pensar, lembrando que a Bíblia é particularmente cruel com as mulheres, inclusive autorizando estupros
Isaías 13:9: Eis que vem o dia do SENHOR, horrendo, com furor e ira ardente, para pôr a terra em assolação, e dela destruir os pecadores.
Isaías 13:15-18: Todo o que for achado será transpassado; e todo o que se unir a ele cairá à espada. E suas crianças serão despedaçadas perante os seus olhos; as suas casas serão saqueadas, e as suas mulheres violadas. Eis que eu despertarei contra eles os medos, que não farão caso da prata, nem tampouco desejarão ouro.E os seus arcos despedaçarão os jovens, e não se compadecerão do fruto do ventre; os seus olhos não pouparão aos filhos. 
Números 31:17-18: Agora, pois, matai todo o homem entre as crianças, e matai toda a mulher que conheceu algum homem, deitando-se com ele.Porém, todas as meninas que não conheceram algum homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós. 
Contudo, é preciso notar que eram outros os tempos e que a mulher era tida como propriedade do homem. E, principalmente, não se pode esquecer que a Bíblia foi escrita, justamente, pelos homens. Mas o fato é que pregadores cristãos não parecem nada preocupados em iluminar esse tema, não estão preocupados em contribuir para uma educação espiritual libertadora... Pena que não existam mecanismos de avaliação do desempenho das igrejas cristãs na formação dos fiéis... Se fossem mais eficientes, se não se restringissem a citar versículos bíblicos para intimidar os fiéis...
Levítico 4  O Senhor ordenou a Moisés:
"Diga aos israelitas: Quando alguém pecar sem intenção, fazendo o que é proibido em qualquer dos mandamentos do Senhor, assim se fará:
"Se for o sacerdote ungido que pecar, trazendo culpa sobre o povo, trará ao Senhor um novilho sem defeito como oferta pelo pecado que cometeu.
Apresentará ao Senhor o novilho na entrada da Tenda do Encontro. Porá a mão sobre a cabeça do novilho que será morto perante o Senhor.
Então o sacerdote ungido pegará um pouco do sangue do novilho e o levará à Tenda do Encontro;
molhará o dedo no sangue e o aspergirá sete vezes perante o Senhor, diante do véu do santuário.
O sacerdote porá um pouco do sangue nas pontas do altar do incenso aromático que está perante o Senhor na Tenda do Encontro. Derramará todo o restante do sangue do novilho na base do altar do holocausto, na entrada da Tenda do Encontro.
Então retirará toda a gordura do novilho da oferta pelo pecado: a gordura que cobre as vísceras e está ligada a elas, os dois rins com a gordura que os cobre e que está perto dos lombos, e o lóbulo do fígado, que ele removerá junto com os rins, como se retira a gordura do boi sacrificado como oferta de comunhão. Então o sacerdote os queimará no altar dos holocaustos.
Mas o couro do novilho e toda a sua carne, bem como a cabeça e as pernas, as vísceras e os excrementos,
isto é, tudo o que restar do novilho, ele os levará para fora do acampamento, a um local cerimonialmente puro, onde se lançam as cinzas. Ali os queimará sobre a lenha de uma fogueira, sobre o monte de cinzas.
"Se for toda a comunidade de Israel que pecar sem intenção, fazendo o que é proibido em qualquer dos mandamentos do Senhor, ainda que não tenha consciência disso, a comunidade será culpada.
Quando tiver consciência do pecado que cometeu, a comunidade trará um novilho como oferta pelo pecado e o apresentará diante da Tenda do Encontro.
As autoridades da comunidade porão as mãos sobre a cabeça do novilho perante o Senhor. E o novilho será morto perante o Senhor.
Então o sacerdote ungido levará um pouco do sangue do novilho para a Tenda do Encontro;
molhará o dedo no sangue e o aspergirá sete vezes perante o Senhor, diante do véu.
Porá o sangue nas pontas do altar que está perante o Senhor na Tenda do Encontro e derramará todo o restante do sangue na base do altar dos holocaustos, na entrada da Tenda do Encontro.
Então retirará toda a gordura do animal e a queimará no altar, e fará com este novilho como fez com o novilho da oferta pelo pecado. Assim o sacerdote fará propiciação por eles, e eles serão perdoados.
Depois levará o novilho para fora do acampamento e o queimará como queimou o primeiro. É oferta pelo pecado da comunidade.
"Quando for um líder que pecar sem intenção, fazendo o que é proibido em qualquer dos mandamentos do Senhor seu Deus, será culpado.
Quando o conscientizarem do seu pecado, trará como oferta um bode sem defeito.
Porá a mão sobre a cabeça do bode, que será morto no local onde o holocausto é sacrificado, perante o Senhor. Esta é a oferta pelo pecado.
Então o sacerdote pegará com o dedo um pouco do sangue da oferta pelo pecado, o porá nas pontas do altar dos holocaustos e derramará o restante do sangue na base do altar do holocausto.
Queimará toda a gordura no altar, como queimou a gordura do sacrifício de comunhão. Assim o sacerdote fará propiciação pelo pecado do líder, e ele será perdoado.
"Se for alguém da comunidade que pecar sem intenção, fazendo o que é proibido em qualquer dos mandamentos do Senhor seu Deus, será culpado.
Quando o conscientizarem do seu pecado, trará como oferta pelo pecado que cometeu uma cabra sem defeito.
Porá a mão sobre a cabeça do animal da oferta pelo pecado, que será morto no lugar dos holocaustos.
Então o sacerdote pegará com o dedo um pouco do sangue, o porá nas pontas do altar dos holocaustos e derramará o restante do sangue na base do altar.
Então retirará toda a gordura, como se retira a gordura do sacrifício de comunhão; o sacerdote a queimará no altar como aroma agradável ao Senhor. Assim o sacerdote fará propiciação por esse homem, e ele será perdoado.
"Se trouxer uma ovelha como oferta pelo pecado, terá que ser sem defeito.
Porá a mão sobre a cabeça do animal, que será morto como oferta pelo pecado no lugar onde é sacrificado o holocausto.
Então o sacerdote pegará com o dedo um pouco do sangue da oferta pelo pecado e o porá nas pontas do altar dos holocaustos, e derramará o restante do sangue na base do altar.
Retirará toda a gordura, como se retira a gordura do cordeiro do sacrifício de comunhão; o sacerdote a queimará no altar, em cima das ofertas dedicadas ao Senhor, preparadas no fogo. Assim o sacerdote fará em favor dele propiciação pelo pecado que cometeu, e ele será perdoado".

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Na Bíblia, crueldade, violência, injustiças incompatíveis com o direito e com valores da civilização

Paradoxalmente, a eleição do Pastor Marcos Feliciano, para a Presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, pode ser vista positivamente por ter suscitado discussões acirradas a cerca dos temas "direitos", "intolerância", "liberdade de expressão"... E mais, os intolerantes saíram do armário e exibiram, orgulhosamente, as próprias limitações.

Com alguma frequência, tenho escrito sobre o assunto "religião" ou, melhor dizendo, sobre a forma com que  religiões são praticadas, em nosso país multicultural, ferindo o direito de muitos e contribuindo para sustentar a ignorância de adeptos, enquanto líderes religiosos enriquecem ilicitamente: do que precisamos? Mais templos ou mais escolas de qualidade?

E, por essa indagação, propus avaliar o desempenho das igrejas, tal como se avalia o desempenho das nossas escolas.

O que incomoda, a quem ouse pensar, é o fato de o número crescente de denominações e templos, se multiplicando vertiginosamente, não corresponder à "pacificação" das personalidades: a violência é crescente e os crentes insistem em um diagnóstico: "Isso é falta de Deus". Pode ser mas, falta de igreja não é, em cada beco, em cada esquina, avista-se uma placa, um convite à prosperidade,  à saúde...

Afinal, o que ensinam as igrejas e a Bíblia? Quantos pastores estariam aptos, intelectualmente e eticamente, a pregar tendo por base o texto bíblico, sem incentivar o ódio e a intolerância?

Desde cedo, cultivo a liberdade de pensamento e de opinião, frequentando religiões diferentes aprendendo a admirar seus ritos e suas mensagens mas repudiando, visceralmente, a submissão a "meias verdades". Claro que a "verdade inteira" não está disponível mas daí a alimentar a minha fé por meio de trechos pinçados da Bíblia, pelo padre, pelo pastor ou por qualquer pregador... Então, decidi ler a bíblia do início. E levei um susto ao constatar que a Bíblia é um livro que relata e prega o uso de violências e crueldades inomináveis! Há salmos em que se clama pelo derramamento do sangue dos inimigos! E há o derramamento do sangue de animais  para purificar os pecados dos homens!

A crença no dever de amar ao próximo e a Deus sobre todas as coisas é incompatível com muitos dos versículos bíblicos que andam na boca de pessoas que pretendem transmitir regras de boa conduta.

Êxodus,7, 17, 18:
Assim diz o SENHOR: Nisto saberás que eu sou o SENHOR: Eis que eu com esta vara, que tenho em minha mão, ferirei as águas que estão no rio, e tornar-se-ão em sangue. E os peixes, que estão no rio, morrerão, e o rio cheirará mal; e os egípcios terão nojo de beber da água do rio.

2 Samuel, 24 - 11 a 23
Levantando-se, pois, Davi pela manhã, veio a palavra do SENHOR ao profeta Gade, vidente de Davi, dizendo:
Vai, e dize a Davi: Assim diz o SENHOR: Três coisas te ofereço; escolhe uma delas, para que ta faça.
Foi, pois, Gade a Davi, e fez-lho saber; e disse-lhe: Queres que sete anos de fome te venham à tua terra; ou que por três meses fujas de teus inimigos, e eles te persigam; ou que por três dias haja peste na tua terra? Delibera agora, e vê que resposta hei de dar ao que me enviou.
Então disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do SENHOR, porque muitas são as suas misericórdias; mas nas mãos dos homens não caia eu.
Então enviou o SENHOR a peste a Israel, desde a manhã até ao tempo determinado; e desde Dã até Berseba, morreram setenta mil homens do povo.
Estendendo, pois, o anjo a sua mão sobre Jerusalém, para a destruir, o SENHOR se arrependeu daquele mal; e disse ao anjo que fazia a destruição entre o povo: Basta, agora retira a tua mão. E o anjo do SENHOR estava junto à eira de Araúna, o jebuseu.
E, vendo Davi ao anjo que feria o povo, falou ao SENHOR, dizendo: Eis que eu sou o que pequei, e eu que iniqüamente procedi; porém estas ovelhas que fizeram? Seja, pois, a tua mão contra mim, e contra a casa de meu pai.
E Gade veio naquele mesmo dia a Davi, e disse-lhe: Sobe, levanta ao SENHOR um altar na eira de Araúna, o jebuseu. Davi subiu conforme à palavra de Gade, como o SENHOR lhe tinha ordenado.
E olhou Araúna, e viu que vinham para ele o rei e os seus servos; saiu, pois, Araúna e inclinou-se diante do rei com o rosto em terra. E disse Araúna: Por que vem o rei meu Senhor ao seu servo? E disse Davi: Para comprar de ti esta eira, a fim de edificar nela um altar ao SENHOR, para que este castigo cesse de sobre o povo. Então disse Araúna a Davi: Tome, e ofereça o rei meu senhor o que bem parecer aos seus olhos; eis aí bois para o holocausto, e os trilhos, e o aparelho dos bois para a lenha.
Tudo isto deu Araúna ao rei; disse mais Araúna ao rei: O SENHOR teu Deus tome prazer em ti.

Então, diante das incoerências, não só dos versículos citados mas de muitos outros, que tratam de violência, vingança e injustiça e, pasmem, até do arrependimento do SENHOR (Estendendo, pois, o anjo a sua mão sobre Jerusalém, para a destruir, o SENHOR se arrependeu daquele mal; e disse ao anjo que fazia a destruição entre o povo: Basta, agora retira a tua mão), cabe analisar a Bíblia como livro histórico. Não se pode, simplesmente, invocá-la como pretexto para punir e excluir pessoas como se depreenderia dos versículos seguintes:

"Levítico 18,22: Não se deite com um homem como quem se deita com uma mulher; é repugnante."

"Deuteronômio, 22 - 20, 21:  Se, porém, esta acusação for confirmada, não se achando na moça os sinais da virgindade,  levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão até que morra;".

A Declaração Universal dos Direitos Humanos é mais generosa e sábia, permite a convivência e o respeito. E guarda sintonia com outros mandamentos bíblicos, estes sim, adequados a um mundo civilizado.

Mateus 7:1-5
"Não julgueis, para que não sejais julgados.
Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.
E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?
Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu?
Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão."

Mateus 5:43-47
Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;
Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.
Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo?
E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?

Tudo aquilo que, na bíblia, apontar para o confronto, para o ódio, para a exclusão, não poderia ser pregado. Não se deve incitar o ódio entre seres humanos usando palavras bíblicas! 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Estado Laico x Estado Teocrático

Se é vedado à União estabelecer cultos religiosos ou igrejas... ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança (Art. 19 da CF, a seguir), como explicar que a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados esteja sob a liderança de um Pastor?

Se a Declaração Universal dos Direitos Humanos garante, desde 1948, que todos têm direito a igual  proteção da lei, inclusive contra qualquer discriminação, por que se nega aos homossexuais o direito que tem, os heterossexuais, de constituir união civil e legar herança ao parceiro?

A indignação e a perplexidade dos que protestam contra a permanência de Marcos Feliciano à frente da Comissão de Direitos Humanos é justa. Ele opõe a Bíblia aos direitos universais e constitucionais. Então, que permaneça nos púlpitos, pregando, que renuncie à carreira política... E que não faça muitos adeptos.

Que Deus ilumine a audiência, desse e de outros pastores, para que as más palavras que proferem sejam, de pronto, rejeitadas; que os fiéis, enfim, usem o próprio cérebro, a capacidade de pensar, que deixem de ser tolos, pobres marionetes nas mãos de religiosos que visam a vida material e o enriquecimento à custa de dízimos e da política. Que a liberdade que vivenciamos, no estado laico, seja preservada, que não tenhamos, um dia,  que obedecer a ordens de pastores imbecis e mal intencionados...

Uma prima, muito querida, me narrou a experiência vivida na igreja que frequentava. Ela alegava os próprios afazeres de dona de casa, mãe de família, para convencer o pastor da impossibilidade de estar todo o tempo na igreja. O pastor, manipulador, dizia-se tomado pelo Espírito Santo e que, nessa condição, via o que se passava na casa da minha prima, insinuando que ela estaria preferindo os carinhos do marido ao serviço de Deus... Minha prima, uma sábia, mudou de igreja, simplesmente! Não se submeteu, não acreditou naquele palavrório de um pastor mal intencionado... Simplesmente, porque vivemos em um um estado laico, ela pôde escolher. E se vivesse em uma teocracia? Estaria sujeita ao mando de um mero pastor ..."tomado pelo espírito", como eles gostam de afirmar, para justificar tudo o que engendram, até as torpezas, como essas em que, uma pessoa que se diz religiosa, não hesita em afirmar que a Comissão de Direitos Humanos estava sob o poder de satanás... E, é bem provável que a platéia que o assistia tenha, na ocasião, proclamado muitos "aleluias"...

O problema, agora, é que há pessoas que parecem estar abdicando da capacidade de pensar, de enxergar... Isso é amedrontador... Se levamos a Bíblia ao pé da letra acreditando ter sido ditada por Deus, teríamos que extinguir todas as conquistas femininas modernas que se contrapõem ao texto bíblico e, até,  aplicar a pena de morte a mulheres:

"Deuteronômio, 22
20 Se, porém, esta acusação for confirmada, não se achando na moça os sinais da virgindade,
21 levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão até que morra;"
Prefiro as leis terrenas e os textos bíblicos coerentes com a essência do Cristianismo:
"O que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles". (Lc. 6,31)."
Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;

Declaração Universal dos Direitos Humanos
Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III)
da Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948

"Artigo XVIII
Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular."
"Artigo VII
Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação."

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Liberdade, liberdade...

Há quem prefira o monocromático entediante: todos pensando identicamente, defendendo as mesmas certezas... Entendo que se deva respeitar até mesmo essa preferência...Mas somente até um certo limite. 

Afinal, quem repudia tudo o que é diferente está, sempre, a um passo do fanatismo, portanto, um risco potencial para o direito que nós, os outros, temos de gostar de todos os tons e sons que pontuam todas as expressões da natureza, tudo o que a nossa percepção consiga divisar. 

Acredito que exista uma certa preguiça mental nos que se refugiam na mesmice das certezas... Será que leem o suficiente, será que buscam informações? Provavelmente não... não querem expor suas convicções a outros pensamentos, não querem iluminar e arejar suas mentes sombrias. São alvos fáceis dos que "vendem" vantagens e milagres, apesar do que está previsto no art. 171 do Código Penal Brasileiro, que assim define o crime de estelionato:

"Obter para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento."

É que a Constituição Federal ao assegurar, em seu art. 5º, a liberdade religiosa, indiretamente, dá abrigo a oportunistas que amealham fortunas iludindo esses incautos preguiçosos que se sujeitam a qualquer "cabresto", desde que permaneçam confortáveis em seus "cinquenta tons de cinza" (rrrsss).

"Art. 5º, VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;". 

Por causa desses "preguiçosos", os demais correm risco de ter restringido seus direitos, assegurados pelo mesmo art. 5º.

E aí? Onde buscar socorro se nem a Constituição garante o que pretende garantir?

O Meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra, afirma o salmista (Salmo 121). 

Todavia, o Senhor, além do céu e da terra, criou o ser humano dotando-o de equipamento corporal e capacidade de pensar. Portanto, esse ser humano não deve depositar todas as suas expectativas aos pés do "Divino" a pretexto de, assim, eximir-se de suas responsabilidades.

Aliás, para quem busca, na Bíblia, todas as respostas e, a pretexto de segui-la ao pé da letra, constrange e persegue o seu semelhante...Nada mais surreal! Afinal, a bíblia é um verdadeiro manual de boas maneiras, ditando regras de convivência e respeito ao próximo, nas palavras do Mestre Jesus:

"...O que queres que vos faça, façais ao próximo... " (Mateus 7:12); 

"...Reconcilia-te com teu inimigo enquanto estás com ele no caminho..." (Mateus 5:25); 

"..tira primeiro a trave do teu olho e então cuidarás de tirar o argueiro do olho do teu irmão..." (Mateus 7:5);

"...Sede, pois, perfeitos como vosso pai que está nos céus, que faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos..." (Mateus 5:45).

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

No meu tempo, no seu tempo...

As pessoas que, como eu, tem no currículo algumas décadas, frequentemente, iniciam diálogos com a frase "No meu tempo...", enquanto aludem ao que seriam as desvantagens dos dias presentes. E essas desvantagens, quase sempre, estão situadas no campo da moral e da ética.

Além de testemunha dos famosos "bons tempos", todos os que estudaram um pouco mais sabem que a realidade sempre foi dura para os mais pobres, para os mais fracos e para as minorias.

Se não rejeitaram todo o conteúdo de História do Brasil e de História Geral, ministrados no extinto Curso Primário e Ginasial, souberam que a ausência de direitos era a regra, que a tortura era uma prática, que a escravidão era normal já que categorias inteiras de criaturas, tidas por inferiores, ou perdedoras, eram subjugadas pelas nações e grupos mais fortes.

Os que lêem a bíblia sabem que a nação de Israel foi escravizada, ao longo da história, por diversos povos. Mas, dentre esses, a maioria enxerga a questão apenas em sua dimensão religiosa e sequer imagina que a escravidão era uma prática comum, um dos frutos da crueldade humana. Quando assistem, na TV,  notícias sobre o combate ao trabalho escravo,  sobre o tráfico de mulheres e de seres humanos em geral, provavelmente se espantam atribuindo esse fato a sintoma de uma doença do mundo moderno.

As atrocidades cometidas, no presente, em nome de religiões não superam às práticas passadas, em covardia, crueldade e dimensão. Basta lembrar a dizimação da cultura indigena e africana, imposta pela Igreja Católica no continente sul americano. Ou as fogueiras da inquisição, na Idade Média. Ou a prática da lapidação e da crucificação, que muitos ignoram  mas era um castigo corriqueiro.

E o assassinato em família? Era comum. Hoje, quando o noticiário nos defronta com filhos que  matam pais ou irmãos, ou a família toda, por herança, nos escandalizamos. E não é para menos. Mas é um erro acreditar que esse é um mal do mundo moderno. Muito pelo contrário, era um crime frequente em famílias em que se disputava o poder de governar.

E quanto ao mundo da política? Pobres e mulheres não votavam. O voto era restrito a homens que comprovassem uma certa renda.

E há muitos mais. Hoje, é possível buscar a verdade. Só permanece na ignorância quem se habituou a se limitar, acreditando em falsidades e em meias verdades, quando basta um click para descobrir e um pequeno esforço de raciocínio para avaliar as descobertas comparando-as às "revelações" de púlpitos e de palanques. Mesmo aqueles que "fugiram" da escola, ou que não tiveram acesso a ela, têm instrumentos formidáveis de informação à sua disposição. E, ainda que a escola seja "conservadora e limitante", é um bom ponto de partida para quem almeja pensar de forma mais independente, evitando rótulos e clichês.