sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Sempre se fez assim? Por que não fazer melhor?

Postei o texto  "Sempre se fez assim", para desabafar indignação por situação vivida no local de trabalho.
Relendo-o, percebo-o um tanto enigmático, muito pelo cuidado que tive em não expor fatos para não identificar pessoas.

Nunca havia sido tão constrangida, nunca havia me deparado com uma situação de trabalho em que as chefias e os servidores da casa, tidos por experientes, na verdade ignoravam o próprio ofício! O trabalho, que eu fizera com acerto, foi retido pela chefia para uma avaliação, digamos assim, mais cuidadosa, porque tudo foi condenado como se errado estivesse! Eu não fui informada sobre o que se passava e, ao longo de semanas, embora percebesse uma atmosfera estranha, não pude me defender senão pontualmente. Houve ocasiões em que levei "pito" e ouvi insinuações sobre a minha conduta que, para mim, soavam tão destituídas de significado, tão evasivas, que eu mal podia contestar. É que o nível de desinformação dessa chefia era tamanho que ela não conseguia dizer objetivamente o que estava errado.

Aos poucos, fui me inteirando dos problemas daquela administração e soube que o funcionário mais antigo, no setor, tinha somente quatro anos de casa e a chefia, apenas três! Compreendi que, o que pareceu inaceitável para a dita chefia era o fato de os meus conteúdos serem completamente diferentes do que era esperado por ela: eles utilizavam textos-padrão num trabalho de análise de prestação de contas de convênio e, para cada possível ocorrência de irregularidade, havia um texto pronto.  Aquela pessoa, então, trabalhava com respostas prontas e, frente às minhas respostas e conclusões, ditadas por uma experiência de décadas, se confundiu e não usou de bom senso, boa educação e, sobretudo, de humildade para solucionar o impasse que se criou.

Acredito que, quem quer que seja razoavelmente educado, saberá respeitar a experiência e o currículo de quem conta décadas de bons serviços. Logicamente, urbanidade e o trato respeitoso não combinam com posturas arrogantes que, muitas vezes, estão presentes em pessoas alçadas a algum nível de poder. Essas pessoas fecham seus ouvidos e capacidade de raciocínio. E nada os demove da própria prepotência.

Sabe-se que emoções mesquinhas são um desserviço a qualquer grande organização... Quantos de nós já não foi impedido de fazer um bom trabalho porque algum idiota sentiu-se melindrado, ferido, por não ser o autor da ideia? Claro que, na Administração Pública, ninguém está a salvo dessa circunstância. Então, essas emoções mesquinhas, muitas vezes, dominam o cenário. Principalmente quando o fator "política", na pior acepção que esse termo tenha, prepondere sobre o fator "administração", na essência do termo.

Uma das advertências que eu me lembro de ter recebido, que mais me surpreendeu, referiu-se à minha capacidade de redigir. A minha, então, chefe, por sinal uma professora de Português, por formação, me disse a seguinte frase enigmática: "Você escreve muito bem... mas...".  Mas, o quê? E, mais não me foi dito. Parece brincadeira. Mas não é.

Uma outra advertência, não menos surpreendente, foi reduzida  na frase "sempre se fez assim". O que estava em discussão? A minha recusa em aceitar, como regular, a rotina mantida por prefeituras que promoviam saques na boca do caixa para fazer pagamentos e que movimentavam os recursos do convênio para uma segunda conta bancária. O problema é que não havia um "texto padrão" da Casa que classificasse esse tipo de ocorrência como irregularidade. Eu, então, coletei acórdãos do Tribunal de Contas da União-TCU que condenavam esse procedimento para sustentar o meu entendimento... Tudo inútil.

Eu já estava "mal vista", apesar de comprovadamente qualificada ... E o pior, sem remuneração, depois de três meses de trabalho, já que os meus resultados, enquanto estivessem sob questionamento, não poderiam gerar pagamento. Então, optei pela saída. Fazer o quê?

Quem tem juízo e sabe o que faz não pode obedecer... não pode renegar o  próprio conhecimento e se submeter a comandos que se sustentem em argumentos do tipo "sempre se fez assim"...

O que me leva, agora, a retomar esse assunto é constatar que, depois das vidas ceifadas em Santa Maria, prefeituras e governos, pelo país a fora, desencadearam ações de fiscalização que deveriam ser rotina. De repente, servidores públicos desses setores estão em evidência... Nota-se, somente agora, a dimensão que tem esse trabalho para a segurança dos frequentadores de casas de diversão!


Conflitos de interesse, baixa qualificação, desconhecimento quanto ao próprio ofício, são inadmissíveis, podem custar a vida, os sonhos, de muitos, podem resultar em prejuízos milionários para toda a sociedade. Então, é fundamental examinar cuidadosamente o rol de atribuições dos servidores públicos de setores estratégicos e conhecer o regimento interno das respectivas repartições para: cobrar eficiência e seriedade, ao invés de reduzir as críticas a meras zombarias e piadinhas pejorativas em que o servidor público é tratado como palhaço.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Conflitos de interesses, e etc., na Administração Pública

A mídia, que busca o escândalo noticiando atos de corrupção, faria melhor se buscasse, também, conhecer o básico em administração pública e sobre a atuação do servidor público. Afinal, deveria ser um compromisso informar e reduzir distorções entre o fato e a versão que se publica. Muito pelo contrário: perseveram os estereótipos no trato desse tema; persevera a ridicularização do servidor público. Se alguns fazem por merecer e se outros são omissos e coniventes, os demais, incluindo o cidadão contribuinte, precisam conhecer melhor o assunto.

Embora os programas de humor, na TV, e a sociedade, em geral, desqualifiquem esse trabalho, a zoação nunca faz sentido tamanho é o desconhecimento das pessoas que escrevem esses infelizes textos de humor, haja vista o personagem "Lineuzinho" de "A grande família". A verdade, sempre ignorada, é que tarefas desempenhadas pelo servidor público, típicas da Administração Pública Federal, não têm paralelo no setor privado; por isso, requerem formação específica, muito especializada. E  a demanda, no setor privado, para esse perfil, quando ocorre, acaba por ensejar a  ocasião de se utilizar o conhecimento adquirido em prejuízo do cidadão: policiais em segurança privada, fiscais que assessoram os setores fiscalizados, etc., etc., etc. ...

Por isso, a zombaria a cerca da burocracia precisa ser substituída por uma discussão mais séria: que rotinas de segurança e controle poderiam ser suprimidas sem trazer prejuízo aos beneficiários dos serviços prestados pelo Estado? É admissível que servidores públicos sejam proprietários, ou empregados, de empresas privadas, principalmente aquelas que atuem no ramo onde desempenham suas funções? Estranhos à Administração Pública (terceirizados e etc) poderiam ter acesso aos sistemas informatizados que processam os atos de gestão pública (orçamento, contabilidade, pessoal, patrimônio, fiscalização, etc.)?

De cada vez que estoura um escândalo envolvendo o Governo Federal, quando quase tudo vai ao "ventilador", fatos estarrecedores vem à tona. Mas esses fatos não merecem a devida atenção; a mídia atém-se às consequências, ou seja, aos lucros auferidos pelos autores das façanhas. Mas, para quem conheça a Administração Pública, o mais surpreendente é constatar a tranquilidade com que regras são ignoradas por todos (Não só por quem rouba!) aqueles que teriam um papel a desempenhar no controle do setor "assaltado".

Exemplo: recentemente, durante as investigações da "Operação Porto Seguro", veio a público que advogados da união estariam exercendo a advocacia privada, inclusive com suspeita de advogarem contra a União! A Orientação Normativa nº 27/2009, da própria AGU, veda o exercício da advocacia privada aos seus advogados. O que teria acontecido, posteriormente? As explicações da AGU não parecem convincentes.

Agora mesmo, em Santa Maria, segundo a imprensa vem divulgando, uma empresa de propriedade de um bombeiro do municpio seria responsável pelo planejamento de combate a incêndio  da boate Kiss, onde aconteceu a tragédia que vitimou tantos jovens. Como seria possível justificar essa espécie de promiscuidade, onde a instituição responsável por fiscalizar o cumprimento das medidas de prevenção a incêndio, tem em seus quadros o dono de uma empresa privada que presta esse tipo de serviço? Não estaria claro o conflito de interesses?

domingo, 27 de janeiro de 2013

Um antídoto contra o apocalipse: investir no presente, preparar o futuro...

A jornalista Cora Ronai nos oferece interessante reflexão, em seu blog, sobre  "A história e os cheiros." , também publicado em sua coluna do Jornal "O Globo":
"Quando passeio por encantadoras cidades antigas, em que tudo parece cenário de filme de época, nunca me esqueço que, no tempo em que viveram seu auge, as noções de higiene eram bem diferentes das nossas. As ruazinhas estreitas que tanto me encantam eram melequentas e imundas. Bichos de todos os tipos circulavam entre as pessoas, de bodes e vacas a ratos e insetos; ninguém tomava banho; havia esgotos a céu aberto..."
Eu, que pouco saio da minha moderna cidade e que nada conheço do mundo, quando assisto os bem cuidados cenários de novelas de época e os vestuários femininos, tudo tão glamourizado, com tanto luxo, costumo, também, pensar no assunto: esse asseio, essa limpeza, em um tempo de condições higiênicas tão precárias, em que não havia sistema de água e esgoto... É tudo cenário, mesmo, tudo ilusão para hipnotizar, para manter o expectador ligado na imagem.

Em um tempo assim, sem luz elétrica, sem automóveis, sem cidades superpovoadas, a vida corria mais tranquila e, sem dúvida, havia uma certa beleza: apesar da ausência dos recursos trazidos pela ciência e pela  tecnologia, a população era muito menor, as pessoas não se acotovelavam nas moradias típicas de periferia dos grandes centros urbanos, as moradias  eram esparsas, os vizinhos distantes, o ar era mais puro... Mais tarde, os sinais do progresso trazido pela industrialização: a abolição da escravidão, o trabalho do imigrante, a urbanização e uma vida muito, muito mais complexa!

Comparar modos de vidas tão distantes é um recurso usado por estudiosos, por profissionais da ciência. A Ciência, porém, não busca resgatar, busca compreender. Aludir ao passado e pensar em trazê-lo de volta para  ressuscitar as ditas "ilibadas condutas de antigamente",  é coisa de gente ignorante; ou de pessoas mal intencionadas, daquelas que sempre existiram e que, entra século, sai século, lucram com a ignorância alheia.

Há quem compare o modo de vida atual com o período em que se viveu a decadência do Império Romano, chamando a atenção para a devassidão da época. Para essas pessoas, a queda é iminente, vivemos "dias de Sodoma e Gomorra", apregoam nos púlpitos de variadas igrejas... E aterrorizam os crédulos ouvintes que, intimidados e apostando em uma vindoura, "Ira Divina", permanecem refém desses maus pregadores, à espera do apocalipse. Dentre esses crédulos, quantos teriam estudado a história do Império Romano? Preguiçosos, preferem aderir ao discurso dos outros do que se dar ao trabalho de estudar. O Império Romano constituiu-se e sustentou-se a partir de guerras expansionistas, anexando territórios e escravizando as populações vencidas, chegando ao ponto em que a população escrava era numericamente superior a de homens livres...além de outras contradições de ordem política e econômica. Um modelo, em si mesmo, explosivo que, mais tarde ou mais cedo, se esgotaria.

E o que haveria de errado com este nosso "modelo", tão lamentado por falsos moralistas?  Estaria, o erro, na liberdade feminina, nas uniões homossexuais e nas novas famílias?

Na História da Humanidade, as questões econômicas é que foram as motoras de todas as transformações, responsáveis pelo declínio, pela hegemonia desta ou daquela civilização. Portanto, o erro, no presente, repete o passado pois o modelo que persiste baseia-se na expropriação da maioria em benefício de poucos: uma multidão vive a margem dos frutos da riqueza gerada pelo trabalho. No caso brasileiro, onde estão os investimentos em educação, se os resultados são pífios, quase invisíveis? Para onde vai a riqueza gerada pelo trabalho? Quantos políticos honram verdadeiramente o respectivo mandato? A tragédia desta madrugada, em Santa Maria, que poderia ter sido evitada se as autoridades locais tivessem cumprido com o próprio dever: aí está a imoralidade, a indecência, o pecado... Efeitos pirotécnicos sem atender a requisitos de segurança, em ambiente superlotado, tendo por saída uma única porta estreita...

Quanto às famílias, tradicionais ou modernas, continuam aí, na luta... Reiterando o post "Resgatar o quê?": os modelos de famílias, antigos ou modernos, não são os responsáveis por esse estado de coisas..."! Portanto, as igrejas, e as pessoas que as representem, precisam voltar suas "metralhadoras giratórias" para a ação dos políticos e não para a moral sexual dos indivíduos.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Na bíblia, textos desfavoráveis às mulheres...

Falando, ainda, em resgate de valores, moral e bons costumes (proposto pela Lei Estadual 6394/2013), creio ser necessário indagar o que deveria ser resgatado e de que ponto do passado: "Resgatar o que?",  "moral e bons costumes" ditados pela Bíblia? O falso moralismo, a falsa espiritualidade de pessoas mentalmente doentes e que perseguem aqueles que são diferentes?

É preciso lembrar que todos os que levem a Bíblia ao pé da letra, inclusive as próprias mulheres, teriam que retroagir no tempo e abdicar de direitos recém conquistados pois é fato que, para aqueles que enxerguem a Bíblia apenas como livro religioso, a consequência será desconsiderar o contexto histórico de suas preleções... E não se admitirá exclusões; ou seja, tudo precisaria ser acatado, obedecido...Porque tudo teria sido "Divinamente inspirado".

Assim, acomodar uma consciência forjada por conceitos bíblicos ultrapassados ao modo de vida moderno é uma experiência, por certo, bastante complicada; principalmente porque a reflexão é um hábito de poucos; a tendência é que as pessoas sigam "macaqueando" o que ouvem, em pseudos estudos bíblicos.

Um estudioso da bíblia que não tenha cursado, ao menos, o ensino médio... Seria um estudioso? Mas o que se afirma por aí é que "Deus não escolhe os capacitados mas capacita os escolhidos.". Para os que reduzem, assim, as próprias expectativas, o preconceito contra as mulheres, ditas pecadoras, pode prosperar. E a pretexto de qualquer conflito doméstico, essas "verdades" recalcadas, acomodadas no fundo das mentes, eclodem:

Efésios 5
22 Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor;
23 porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o Salvador do corpo.
24 Mas, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres o sejam em tudo a seus maridos.
Timóteo 2
11 A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição.
12 Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio.

Colossenses, 3

18 Vós, mulheres, sede submissas a vossos maridos, como convém no Senhor....
Deuteronômio, 22
20 Se, porém, esta acusação for confirmada, não se achando na moça os sinais da virgindade,
21 levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão até que morra; porque fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai. Assim exterminarás o mal do meio de ti.
22 Se um homem for encontrado deitado com mulher que tenha marido, morrerão ambos, o homem que se tiver deitado com a mulher, e a mulher. Assim exterminarás o mal de Israel.
23 Se houver moça virgem desposada e um homem a achar na cidade, e se deitar com ela,
24 trareis ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis até que morram: a moça, porquanto não gritou na cidade, e o homem, porquanto humilhou a mulher do seu próximo. Assim exterminarás o mal do meio de ti.
Vê-se, então, que esses conceitos parecem estar em perfeita sintonia com o comportamento de homens que se julgam proprietários de suas mulheres, que sentem o peso de uma rejeição como uma humilhação inadmissível, que acreditam que mulheres fazem por merecer ataques sexuais porque os provocam. A aplicação de preceitos bíblicos à vida cotidiana incita a violência contra as mulheres, assim como incita a intolerância religiosa: em Manaus, alunos evangélicos recusaram-se a fazer trabalho sobre cultura afro-brasileira.

Em Nova Délhi, na Índia, a violência contra a mulher é cultural e religiosa (assim como em países muçulmanos) e uma mulher, ainda que acompanhada, é ostensivamente assediada: é o que nos conta o colunista Francisco Bosco, em artigo sob o título "Misoginia na Índia".

Então, é preciso estar atento pois a misoginia também habita entre nós. E, todos os que buscam viver de forma verdadeiramente cristã ("ama ao próximo como a ti mesmo...") devem olhar de forma crítica iniciativas que, originadas de grupos religiosos ou de pessoas que os representem, no Parlamento, tenham por objetivo infiltrar, no seio da administração pública, "valores éticos/morais/espirituais" identificados com uma determinada religião.

Afinal, ninguém almeja, por aqui, viver em uma ditadura teocrática, ninguém pretender renunciar às liberdades conquistadas. E, se há mulheres desejosas de receber o tratamento prescrito no texto biblico aqui referido, o melhor é buscar um outro tratamento: o psiquiátrico.

E, como vem acontecendo corriqueiramente, mais uma crueldade perpetrada contra uma mulher, mais uma vingança torpe de um ex-marido que, provavelmente, não será refletida em estatísticas oficiais de modo a que se possa perceber e tratar a questão como ela merece ser tratada: como prioridade absoluta, com objetivos claros de combater essa misoginia escancarada e incentivada por falsos moralismos e falsa espiritualidade, que resulta em homens que tem ódio das mulheres.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Liberdade irresponsável

Uma menina de 14 anos, após ter sido estuprada pelo padastro, foi morar com o pai que também a estuprou; e engravidou. É o que relata matéria do G1. A mãe alega não fazer ideia do que vinha acontecendo embora a filha tenha relatado à Assistente Social que sofria o abuso desde os onze anos de idade. Tudo muito chocante nessa matéria, inclusive o fato de a mãe da menor ter outros oito filhos!

Esse fato remete às questões a que me referi nas postagens anteriores: resgate de valores (resgatar o quê?), crise na família, lei da moral e dos bons costumes, violência contra as mulheres...

Há uma única explicação: desrespeito à mulher, à criança, reiterado desde datas imemoráveis... É o que revela o estudo da História. A História, inclusive a recente, mostra o costume de soldados estuprarem mulheres. Na guerra que levou à desintegração da antiga Iugoslávia (Sérvia, Kosovo, Bósnia, Croácia), houve violação sistemática com o propósito de engravidar as mulheres e promover "limpeza étnica"! Quem se interessar sobre o tema leia o ensaio de Fernanda Ribeiro de Azevedo  Crimes sexuais e as guerras.

Mas, não resta dúvida de que o progresso chegou: esses atos, hoje, são tratados como crime, em oposição ao passado recentíssimo onde a mulher, quando se dirigia a uma delegacia para prestar queixa, ouvia a seguinte piada nojenta: "Quem guiou o cego?". Foi esse tratamento agressivo que motivou a criação das Delegacias de Mulheres, na década de 80.

No entanto, na  notícia a que me refiro, no início deste texto, há um aspecto que merece relevo: a mãe da jovem violada tem outros oito filhos! Essa mãe não faz jus à liberdade de que desfruta, a duras penas conquistada pelas mulheres da minha geração. Não só não cuidou da filha de 14 anos mas colocou mais oito crianças no mundo. E, ainda ousa dizer que a filha não está traumatizada!

Nem todas as pessoas tem perfil para ser mãe, ou pai, embora a maioria seja dotada dos "equipamentos" necessários à concepção. Assim, as igrejas que fazem campanha antiaborto e anti-métodos contraconceptivos deveriam, também, se encarregar da educação dessas pessoas identificando-as na multidão e impedindo que botassem tantos inocentes no mundo, irresponsavelmente. Não basta pregar, bradar, amaldiçoar.... É preciso se comprometer. Afinal, se esses grupos se julgam, assim, tão poderosos, emissários diretos de Deus na defesa da vida, por que não a defendem, efetivamente? Por que permitem que aqueles que escaparam do aborto se tornem, no futuro, vítima da violência praticada pelos próprios pais?

Em se tratando de "moral e bons costumes", nada é o que parece, nada é tão simples; e tudo passa pela educação.  Por isso mesmo, o tema pode ser uma bandeira perigosa nas mãos de pessoas religiosas com pouca instrução e tendentes ao fanatismo. É uma discussão que não pode ser adstrita à noção de moralidade que é pregada nos púlpitos por hipócritas que atribuem os males modernos às conquistas femininas.

Resgatar o quê?

A palavra "resgatar" quando usada na discussão de questões que envolvem os problemas familiares da atualidade, principalmente em discursos proferidos por religiosos, é carregada de preconceitos. Procura-se fazer crer que, no passado, as famílias eram modelos de respeito e afeto e que, desde então, quase tudo teria mudado para pior.

Uma mulher jamais deveria compartilhar de semelhante visão, é um verdadeiro tiro no pé. Mas, lamentavelmente, aderem a essas frases de efeito destituídas de verdade e que não resistem à menor análise: é tudo uma deslavada mentira.  Afirmo, não só por ter levado a sério os meus estudos de História, ainda no antigo primeiro grau mas, também, por ter vivido a minha infância em parte da década de 50 e 60, ou seja, testemunhei muita coisa.

Senão, vejamos:

  • as mulheres eram tratadas com desprezo e muitas proibidas de ir à escola;
  • era frequente mulheres serem trancadas em casa pelos maridos, quando estes saiam para trabalhar;
  • a mulher era obrigada a se manter virgem até o casamento e, se não casasse, continuaria virgem pelo resto da vida;
  • o homem, mal entrava na adolescência, era obrigado a se relacionar com prostitutas;
  • a mulher, com alguma frequência, era ludibriada pelo namorado cedendo a chantagens emocionais e, ao aceitar relações sexuais antes do casamento, logo era repudiada;  
  • a mulher que cedesse ao namorado, ou noivo, abandonada por ele, se ficasse grávida  ou se fosse descoberta era expulsa de casa; 
  • uma mulher, se expulsa de casa por ter perdido a virgindade, muitas vezes se via obrigada à prostituir-se para sobreviver pois não tinha formação para o trabalho (as mulheres eram educadas para o casamento);
  • os homens, em geral, frequentavam prostíbulos na vigência do casamento e mantinham amantes e, até, segundas famílias com filhos, cachorro, papagaio... E tudo era aceito e acobertado na hipocrisia reinante;
  • até a década de 40, a mulher sequer tinha direito ao voto, ou seja era uma subalterna!; 
  • ares de mudança surgiram no final dos anos 50 e as mulheres começaram a ingressar no mercado de trabalho, muito timidamente pois, nessa época, a maioria das profissões era vedada às mulheres: elas podiam ser enfermeiras, professoras e assistentes sociais;
  • o crime de violência sexual não era visto como tal pois as mulheres que a sofriam, ainda que crianças, eram tidas como únicas responsáveis pela própria desgraça, provocadoras, imorais...; 
  • paro de enumerar, aqui, não por falta de descalabros somente para finalizar a postagem... Mas, antes, recuemos ao século XIX: todos sabemos que até o ano de 1888, nosso sistema econômico assentava-se na escravidão dos negros traficados da África e que as famílias de negros não eram tidas como tais! Crianças negras eram arrancadas de suas mães e vendidas e as mulheres negras eram sistematicamente estupradas! 
Com que então, o antigo modelo de família era perfeito e precisa ser resgatado??!!! quá, quá, quá, quá, quá, quá ...... 

Eu tive a sorte de nascer em uma família moderna para os padrões da época. Fui incentivada a estudar e a ter uma profissão. Lia muito e, desde cedo, compartilhava a leitura de jornais e revistas com meu pai, um homem bem informado e politizado. Minha mãe lia clássicos da literatura brasileira, uma dona de casa simples mas com a mente aberta. O interessante é que, ambos, tinham somente o antigo curso primário! E éramos muito pobres. 

Meus pais eram diferentes e, para honrar o que eles foram, vivendo contrariamente à maioria, falo a verdade.  Não podemos romantizar o passado. O que podemos e devemos fazer é melhorar o presente. 

Não há o que resgatar! Precisamos olhar detidamente os fatos que foram se desencadeando a partir das salutares mudanças do século XX que, embora bem vindas, tornaram a nossa sociedade extremamente complexa. Pagamos o preço de uma urbanização acelerada provocada pelo chamado êxodo rural, pagamos o preço de um elitismo corrupto que propiciou o abandono e a violência nas periferias das grandes cidades brasileiras. E os modelos de famílias, antigos ou modernos, não são os responsáveis por esse estado de coisas.

Temos uma questão política mas, infelizmente, há quem queira enxergar tudo sob um prisma religioso: tudo seria falta de Deus na vida das pessoas, tudo se resume e se explica na frase "são sinais dos tempos".

Porém, aos olhos de quem se permita examinar os fatos um pouco mais atentamente, o mundo mudou para melhor. Acredito nisso, por isso me repito e relembro o que postei no dia 02/01/2012 e , também, em 2010: No meu tempo, no seu tempo....

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A "Lei da moral e dos bons costumes".

Inevitável falar sobre a ação de políticos inescrupulosos, inevitável desabafar indignação e revolta quando, rotineiramente, a TV exibe a precariedade dos serviços prestados pelo Estado: calamidades provocadas por secas e por enchentes, se repetindo ano após ano; transporte coletivo incompatível com as demandas; ônibus abarrotados e mal conservados e rodovias idem; mortes nas estradas e trabalhadores gastando quatro horas por dia no deslocamento casa-trabalho...E nem se fale da precariedade dos sistemas de saúde e de educação.

É nesse contexto que uma deputada estadual do Rio de Janeiro ligada a um grupo religioso, possivelmente bem intencionada, propõe uma lei que visa resgatar valores morais. Soa bastante irônico... Primeiro, porque é à sombra do Poder Público que prosperam os maus exemplos... Segundo, porque somente a educação é capaz de suscitar "...Valores Morais Sociais, Éticos e Espirituais...". Será que a Deputada desconhece o papel que cabe à educação nesse terreno?

Não seria demais lembrar que o Art. 208 da Constituição Federal (a seguir transcrito) garante ao cidadão, desde 1988, o acesso à educação. Por quê, então, não se propõe cobrar o efetivo cumprimento daquilo que já está previsto? Para quê criar arremedos em paralelo?

O leitor que tiver tempo e curiosidade, compare o objetivo texto constitucional com o texto inócuo da Lei estadual nº 6394/2013, recentemente aprovada pelo Governador Sérgio Cabral. Políticos precisam trabalhar de verdade! Fazer de conta, chover no molhado? É coisa de estelionatário.

"Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:

I - educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria; (Emenda 59, DE 2009)
II - progressiva universalização do ensino médio gratuito;
III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino;
IV - atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade;
V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;
VI - oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando;
VII - atendimento ao educando, em todas as etapas da educação básica, por meio de programas suplementares de material didáticoescolar, transporte, alimentação e assistência à saúde. (Emenda 59, DE 2009).

§ 1º - O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo.

§ 2º - O não-oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da autoridade competente.

§ 3º - Compete ao Poder Público recensear os educandos no ensino fundamental, fazer-lhes a chamada e zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela freqüência à escola."

Faria melhor, a Deputada, se olhasse os direitos de cidadãos cariocas, sistematicamente violados, quando lhes falta a saúde, a educação, a segurança, o transporte... Mas, o que se nota é que o Poder Público, em todas as esferas, negligente no cumprimento de seus deveres e eficientíssimo no sistema de arrecadação, ainda se furta ao atendimento de reclamações na Justiça, postergando, postergando, e postergando para, jamais, pagar o que deve ao cidadão reclamante. É ou não é imoral?

Lamentavelmente, a palavra "moral",  pronunciada por indivíduos desejosos de doutrinar, quase sempre é no sentido da conduta sexual alheia, algo que é do âmbito da privacidade de cada um!

Homens, mulheres, não importa se héteros ou gays, são humanos. Mas há aqueles que parecem enxergar somente a dimensão sexual das pessoas, uma espécie de ideia fixa!

Não faz muito tempo essa Deputada, preocupada com a moral e os bons costumes, declarou-se casta,  em estado de abstinência... Espero que suas "boas intenções", com esse "programa de resgate da moral",  não inclua o comportamento sexual alheio.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Feliz Natal!

E, de novo, comemoramos o Natal. Eu, cá, me sinto privilegiada pois já são 65 natais. Nem sempre comemorei ao estilo que se impõe, com ceias fartas e grandes reuniões...Mas nunca experimentei qualquer frustração por escapar do contexto e seguir a rotina típica dos outros dias do ano. Muito pelo contrário.

Havia, sempre, a confraternização no ambiente de trabalho... Nessas, eu estava presente ... E, muitas vezes, me diverti, não pela festa em si mas por assistir os desentendimentos entre colegas de trabalho: brigas ridículas por mesquinharias do tipo "...se fulano participar, não vou entrar no "amigo oculto"..."; "...Comprei presente caro e ganhei essa porcaria...". Enfim, comédia pura! 

Lembro-me de um colega, fumante, que filava cigarros habitualmente... Na abertura do "amigo oculto", coitado, foi presenteado com um pacote de cigarros... Eram os idos de 80, quando fumar estava na moda.

O prazer de estar em família, entre amigos, não tem data e nunca sai de moda. O que faz falta é o ritual, todos gostamos de rituais, uns mais, outros menos...Uns gostam de festas, outros são mais reservados...

A todos os que vem me honrando, lendo esses meus escritos, um grande abraço, um Feliz Natal, o menos convencional possível, com muita verdade e muita fraternidade.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Liberdade, liberdade...

Há quem prefira o monocromático entediante: todos pensando identicamente, defendendo as mesmas certezas... Entendo que se deva respeitar até mesmo essa preferência...Mas somente até um certo limite. 

Afinal, quem repudia tudo o que é diferente está, sempre, a um passo do fanatismo, portanto, um risco potencial para o direito que nós, os outros, temos de gostar de todos os tons e sons que pontuam todas as expressões da natureza, tudo o que a nossa percepção consiga divisar. 

Acredito que exista uma certa preguiça mental nos que se refugiam na mesmice das certezas... Será que leem o suficiente, será que buscam informações? Provavelmente não... não querem expor suas convicções a outros pensamentos, não querem iluminar e arejar suas mentes sombrias. São alvos fáceis dos que "vendem" vantagens e milagres, apesar do que está previsto no art. 171 do Código Penal Brasileiro, que assim define o crime de estelionato:

"Obter para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento."

É que a Constituição Federal ao assegurar, em seu art. 5º, a liberdade religiosa, indiretamente, dá abrigo a oportunistas que amealham fortunas iludindo esses incautos preguiçosos que se sujeitam a qualquer "cabresto", desde que permaneçam confortáveis em seus "cinquenta tons de cinza" (rrrsss).

"Art. 5º, VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;". 

Por causa desses "preguiçosos", os demais correm risco de ter restringido seus direitos, assegurados pelo mesmo art. 5º.

E aí? Onde buscar socorro se nem a Constituição garante o que pretende garantir?

O Meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra, afirma o salmista (Salmo 121). 

Todavia, o Senhor, além do céu e da terra, criou o ser humano dotando-o de equipamento corporal e capacidade de pensar. Portanto, esse ser humano não deve depositar todas as suas expectativas aos pés do "Divino" a pretexto de, assim, eximir-se de suas responsabilidades.

Aliás, para quem busca, na Bíblia, todas as respostas e, a pretexto de segui-la ao pé da letra, constrange e persegue o seu semelhante...Nada mais surreal! Afinal, a bíblia é um verdadeiro manual de boas maneiras, ditando regras de convivência e respeito ao próximo, nas palavras do Mestre Jesus:

"...O que queres que vos faça, façais ao próximo... " (Mateus 7:12); 

"...Reconcilia-te com teu inimigo enquanto estás com ele no caminho..." (Mateus 5:25); 

"..tira primeiro a trave do teu olho e então cuidarás de tirar o argueiro do olho do teu irmão..." (Mateus 7:5);

"...Sede, pois, perfeitos como vosso pai que está nos céus, que faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos..." (Mateus 5:45).

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Gente chata...


Acho deplorável aquele tipo de criatura que gosta de se fazer de vitima, que busca ser o centro das atenções manipulando as emoções alheias... Dissimulados, cheios de desculpas esfarrapadas,  tudo o que esse tipo não quer é se dar ao trabalho de ser uma pessoa melhor, embora insista em vender uma imagem de “gente boa”.  Quem assim se coloca, não tem respeito próprio. Como ousa, então, pretender o respeito alheio?

Na vida privada, pessoas com esse perfil  logo são “descobertas” ... Suas historinhas repetitivas, onde o papel de vilão cabe sempre aos outros, são intragáveis aos ouvidos alheios; e, se não recorrem a uma terapia, acabam rejeitados, com exceções porque, como se diz “há sempre um chinelo velho para um pé doente.” rrrsss... E, se têm dinheiro, “compram” a atenção dos outros.

E na vida pública? Não são poucos os que se dizem perseguidos!  Vítimas da Imprensa, vítimas do preconceito das antigas elites... Quanta  desculpa  para continuar abarrotando o “caixa 2” de seus partidos!  É uma gente muito, muito chata!

Quem não se faz de coitado, odeia provocar a piedade alheia. Portanto, nutre natural aversão por essas pseudo-vítimas, não cai nesse verdadeiro "conto do vigário". 

Mas há os que vivem de alimentar esses “joguinhos”... Carentes que são, viram plateia cativa de historinhas mal contadas. E, infeliz coincidência, os que curtem essas “anedotas”, não raro, também apreciam receber favores.  Gente chata mesmo!

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Roubar é crime.

"Se vos permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos. E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará." (João 8: 31 e 32). 

Jesus proferiu estas palavras na ocasião em que era provocado pelos escribas e fariseus que buscavam encontrar um pretexto para ter de que acusá-lo. Ou seja, Ele era indagado mas, habilmente, esquivava-se de resposta específica atendo-se à essência da sua pregação. Assim, Jesus confundia ao invés de ser confundido pelos fariseus.

A humanidade não mudou e os fariseus estão por toda a parte: no Brasil, ardilosos, procuram confundir aqueles que insistem em ter a honestidade como princípio, como valor que não se negocia.

É nesse contexto que se tornou corriqueiro ouvir teorias bem construídas, mas risíveis, em que se procura antagonizar a população brasileira dividindo-a em dois grupos, os que estariam a favor dos pobres e os que estariam contra os pobres.

Por exemplo: enxergar defeitos no governo petista é estar contra os pobres; condenar atos de corrupção praticados durante a administração petista é estar contra os pobres.

Outro estratagema que busca confundir é comparar atos de corrupção que teriam sido praticados pela administração passada aos atos agora investigados, praticados durante a administração petista. Ora, roubo é roubo e o responsável, seja de que partido for, precisa ser punido. O roubo, ainda que comprovado, praticado em administrações passadas, não torna tolerável o roubo que se pratique agora. Não se justifica o próprio erro apontando o erro alheio.

Para quem está atento à "palavra", o que importa é a verdade (João 8:31 e 32): roubar é crime, fraudar é crime. O resto é "teatro" de péssima qualidade.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Rapapés e salamaleques: fanatismo na política

Iniciado o julgamento da ação penal 470, ou julgamento dos mensaleiros, verifica-se um  movimento, na Internet, em que indivíduos ligados a um partido político procuram desmoralizar o Procurador Geral da República, Roberto Gurgel.

Há uma grande diferença entre criticar, apontando falhas e, simplesmente, depreciar, debochar, ridicularizar. Eu tenho por mim que o trabalho honesto merece respeito. Aliás, o Procurador, conforme registra sua biografia, ingressou no Ministério Público, por concurso público, em 1982, ou seja, tem dedicado a vida à essa carreira.

Não seria de estranhar que políticos pertencentes a castas privilegiadas, ditas oligarquias, manifestassem menosprezo pelo trabalho e por trabalhadores... Mas o que dizer de pessoas comuns que estão usando a web para atacar, raivosamente, um servidor público que está, tão somente, se desincumbindo de suas tarefas? A que ponto chegará esse fanatismo da política?

Estamos em vias de mergulhar no obscurantismo, retrocedendo, a passos largos, para a Idade Média... As liberdades serão extintas, seremos, todos, obrigados a "rezar o mesmo credo", a aplaudir um único líder, com muitos "rapapés e salamaleques", teremos que chorar convulsivamente quando "ele" morrer, como fizeram os infelizes coreanos quando morreu Kim Jong-Il... Seremos obrigados à unanimidade, sem discordâncias, sem discussão... Muito Chato, muito opressivo.

Lamentavelmente, há muitos que se sentem atraídos pelas personalidades autoritárias, gostam de rapapés, de vassalagem, gostam de não pensar... Não é à toa que se diz que cada povo tem o governo que merece.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Por que a qualificação e a sanidade mental de governantes não são avaliadas?

Hoje, dia histórico em que o STF inicia o julgamento dos "mensaleiros", fiquemos a postos, na torcida, como se fosse uma copa do mundo, contra os ladrões e pela vitória do bom senso, da vergonha na cara, torcendo, em resumo, pelo fim definitivo da impunidade.

Aqui, também, há castas. Diferentemente da Índia, porém, os que estão no topo da pirâmide social, detentores de todo o poder e de toda a riqueza, é que são uma espécie de intocáveis. Talvez seja mais correto afirmar que estão, de fato, fora da pirâmide, efetivamente intocáveis porque tudo lhes é permitido, pairam acima do bem e do mal.

Mas os "párias" daqui, ou seja, todos nós que não estamos no topo da pirâmide, é que são submetidos aos "rigores da lei". Somos párias, na medida em que temos sido alijados de tantos direitos básicos como saúde, educação, segurança e, até, do direito à justiça! Paradoxalmente, insistimos na auto-denominação de cidadãos.

O curioso é que qualquer de nós precisa comprovar e demonstrar aptidão e experiência para o exercício profissional, seja na esfera pública, seja na esfera privada. Precisamos provar que somos decentes e confiáveis. Para o exercício de mandatos políticos e de cargos públicos, designados como cargos de confiança, nada se exige. Então, desqualificados e bandidos vem tomando de assalto a administração pública.

Por isso temos, hoje, um julgamento de políticos no STF; porque, na política, é permitido o ingresso de mal feitores, porque não há um processo seletivo que exclua incompetentes, bandidos e os mentalmente incapazes, porque indivíduos obcecados por dinheiro e poder, tão loucos quanto qualquer outro viciado, jamais poderiam ser admitidos na gestão pública: psicopatas, debiloides, imbecis que não enxergam nada além do próprio umbigo.

Enfim, precisamos que se faça justiça, ao melhor estilo bateu? Levou! 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Um tabu: tratar a saúde mental

Três fatos, odiosamente corriqueiros, frequentam as manchetes dos jornais, em nosso país: as agressões a crianças, por pais e padastros, o assassinato de mulheres, por ex-companheiros, os desvios de recursos do orçamento público, por políticos e administradores. A covardia extrema é a marca desses comportamentos criminosos pois a vítima é surpreendida em completa fragilidade; seja o cidadão, traído por quem elegeu; seja a mulher, a mercê da insanidade machista; seja a criança, completamente desamparada no ambiente doméstico em que que deveria ter garantido o seu crescimento saudável.

A quantidade de mulheres assassinadas e de crianças agredidas, e muitas não resistem aos traumas sofridos, é assombrosa. Parece haver muitos "loucos" à solta. Na minha avaliação de leiga, trata-se de claro sintoma de desequilíbrio mental e emocional. A saúde mental da população deveria ser preocupação primordial do Ministério da Saúde. Contudo, não temos uma política pública para a saúde mental. O que temos é um imenso preconceito quanto ao tema "tratamento psiquiátrico e psicológico"; e todos se apressam em assegurar a própria sanidade mental, psíquica e emocional. Mas, como já disse o poeta Caetano Veloso "...De perto, ninguém é normal..."

E, o pior é que, mesmo para os que admitem a necessidade de apoio terapêutico, não há socorro à vista,  a não ser para os que detenham poder aquisitivo compatível com o alto custo das terapias. Ainda na minha avaliação de leiga, acredito que todos nós, absolutamente todos, precisamos de consultas periódicas com Psicólogos/Psiquiatras como rotina de saúde, da mesma forma com que frequentamos outros profissionais da Medicina. Mas isso é um tabu! Quantos de nós teríamos, em nossas jornadas de trabalho, comparecido ao RH da empresa, portando um atestado de um Psicólogo recomendando o afastamento por um dia, dois ou mais? No entanto, o próprio ambiente de trabalho é, muitas vezes, desestabilizador, verdadeira "fábrica de loucos". Busca-se o apaziguamento das inquietações nos "happy hour", com muita bebida. E, após "tranquilizados", os "doentes" retornam a seus lares onde, não raro, a família vira "saco de pancada".

Esse é o processo para muitos, dentre a maioria de nós, pobres mortais. Mas, o que dizer das altas autoridades que, em surto de ganância doentia, roubam o que pertence à coletividade, e se desculpam cinicamente alegando se tratar de "caixa 2"? Esses tem dinheiro de sobra para tratamento; mas qual, dentre todos, se auto-avaliará incapaz de administrar em decorrência da compulsão que têm por roubar?

Talvez Freud tenha razão, em sua teoria do desenvolvimento psicossexual, quanto aos desvios de personalidade como resultado de rupturas no amadurecimento da sexualidade. Por que tantas agressões são preferencialmente dirigidas a mulheres e crianças, por homens adultos? Por que a ganância masculina desmedida, consumada com a conquista do poder econômico e político, é coroada com a "conquista" de muitos elementos do sexo feminino? No baixo mundo da política, os poderosos colecionam amantes e desvios de conduta. E aqueles que, pela vida a fora,  tendo desfraldado a bandeira de repúdio ao homossexualismo, são descobertos em sua inclinação sexual secreta? Por que a excessiva preocupação, de muitos, com a inclinação sexual alheia?