quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Onde buscar socorro? Mateus, 5, 20

Se a justiça, no Brasil, tarda e falha e se a União comporta-se como litigante de má fé, o que nos resta?
"Mateus, 5,20: Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo algum entrareis no reino dos céus."

Eis a verdadeira e inquestionável justiça, largamente exemplificada em todo o discurso de Cristo, até o último versículo do capítulo 5 ("Sede, pois perfeitos, como é perfeito o vosso pai que está nos céus").

A aplicação dessa visão de justiça dispensaria qualquer reparação pois, de antemão, tudo estaria em perfeita harmonia. Se cada indivíduo, seguindo naturalmente os preceitos do capítulo 5, se abstivesse de prejudicar os outros, estaríamos a um passo da educação perfeita. E os Advogados, juízes, mediadores e toda a categoria de atividades policiais tenderiam a desaparecer uma vez que todos se comportassem civilizadamente.

Como tantas outras profissões que foram suprimidas pela automação, pela revolução industrial e tecnológica,  carreiras com perfil de repressão ou de correição encolheriam, perderiam importância e prestígio e, por fim, a razão de existir. Em contrapartida, profissões ligadas à educação ganhariam  reconhecimento e remuneração compatível.

Hoje, quando as manchetes que reportam o tráfico de drogas e a corrupção, na esfera pública, monopolizam os espaços da mídia e mobilizam a atenção da sociedade, é compreensível que as carreiras do mundo jurídico, e a de policial federal, sejam a aspiração dos que buscam status e salários mais altos. Afinal, quanto mais bandidos audaciosos em ação, maior a necessidade desses profissionais, para investigar, prender, julgar, punir.

Mas é preciso quebrar esse ciclo perigoso ou, logo, estaremos divididos entre, bandidos de um lado e advogados e policiais de outro. Bastaria aplicar os preceitos de Mateus, 5,  antídoto perfeito para todos os vícios e defeitos de caráter. E colocar a educação em primeiríssimo plano, sempre nas mãos de professores, é claro... Religiosos pregam, não educam (e, alguns, sequer estão aptos a pregar) salvo quando tem formação de educadores.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Litigância de má fé

O Código de Processo Civil define como litigância de má fé a conduta pela qual se busca frustrar o curso da justiça, por meio de vários artifícios, todos relacionados no Art. 17. Um desses artifícios é, reiteradamente, usado para postergar o desfecho de ações movidas por servidores públicos contra a União: são recursos, embargos (ou lá o nome que tenha a  peça jurídica) construídos habilmente com o objetivo de rechaçar o direito dos reclamantes, obrigando o trânsito da ação em todas as instâncias, até o Supremo Tribunal Federal. Há, até, aquelas ações que, mesmo tendo ultrapassado todas essas barreiras ( "trânsito em julgado"), não resultam em pagamento do que é devido. É que, na fase de pagamento, novos processos são abertos para que a União cumpra com a obrigação. E acontece o inacreditável: esses processos passam a ser questionados, ora pela Advocacia Geral da União- AGU, ora pela própria Justiça; não pelo mérito, que já foi julgado, mas por bobagens burocráticas.

Meu irmão, professor de educação física de uma instituição federal,  ajuizou ação contra a União no ano de 1994. Ganhou, em 1999, adoeceu em 2005; utilizou a prerrogativa legal que determina a agilização do pagamento a portadores de câncer e de outras doenças que trazem risco de morte; inutilmente pois decorridos 6 anos de sua morte, seu filho, ainda menor de idade, e a viúva,  não receberam um centavo. E ninguém explica, satisfatoriamente, as razões pelas quais esses pagamentos não são realizados. Mesmo os pequenos valores, que deveriam ser pagos imediatamente uma vez que não são passíveis de inscrição em precatórios, não o são.

O Estado Brasileiro deixa de satisfazer obrigações irrefutáveis, já reconhecidas pela justiça. Paralelamente, seus representantes são lenientes com atos de corrupção praticados dentro da máquina federal.

É um estado que se serve da Justiça para oprimir o cidadão. Não pode ser classificado como um Estado de Direito, um Estado Democrático. Aqui, a justiça tarda e falha..

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Justiça: tarda e falha

Incrível  que o próprio Poder Público retarde a ação da Justiça, com intermináveis recursos e embargos, impetrados pela Advocacia Geral da União, e congêneres dos estados e do DF, até a última instância.

Ora, o Direito Administrativo obriga a que o administrador público reveja seus atos para corrigi-los. Aliás, qualquer um de nós, na vida particular, quando erra e assume, trata de consertar. Por que não o Estado?

O Estado também é responsável por abarrotar a Justiça e, em certa medida, mais do que as operadoras de TELECOM pois, embora, estas, sejam apontadas como vencedoras nesse horrível ranking, cabe ao Estado dar o exemplo. Mas, ao que parece, são outras as suas diretrizes: ganhar tempo, adiar despesas.

Marcos Mariano da Silva, 19 anos recluso por crime que não cometeu, morto aos 63 anos. E o governo do estado de Pernambuco, não satisfeito em  incapacitar um cidadão inocente (que deixou o sistema prisional cego e tuberculoso)  postergou os efeitos da Justiça, de modo que Marcos Mariano morreu antes de receber a compensação financeira pelo dano material e moral sofrido.

É certo que a União, assim como os estados, o DF e os municípios, não pode ficar indefesa em processos em que é ré. Mas, por que será que os advogados que  representam o Poder Público, depois de estudar devidamente as ações movidas por terceiros e de constatar aquilo que é de direito, não admitem o erro? Por que adiam  a  realização das expectativas daqueles a quem o Estado lesou? Todo réu tem direito à defesa; mas, daí a burlar o direito dos que buscam, na Justiça, a reparação do erro de que são vítimas, é inadmissível, é revoltante. Equivale a subtrair, do cidadão, qualquer recurso, em qualquer instância, caracterizando violação de direitos humanos, restando, como última medida, a apelação à Organização dos Estados Americanos.

Eu  penso que os advogados que fazem a representação jurídica dos entes do Estado Brasileiro, se pretendem ter orgulho do que fazem (tanto quanto do contra-cheque que recebem), precisam estar atentos a essa questão porque não há beleza, não há ética em ser um mero instrumento da covardia do Estado contra o cidadão.

domingo, 27 de novembro de 2011

Educação? Zero. Espiritualidade? Adormecida.

Estar bem informado, ser bem educado, é fator de saúde, porque faculta, ao indivíduo, as melhores escolhas, ainda que os recursos sejam escassos; aliás, quanto mais escassos, mais cuidadosa deverá ser a escolha.

Alimentar-se de forma consciente, não somente para saciar a fome ou para degustar guloseimas, mas para atender necessidades do corpo físico. Escolher boa música, bons livros, bons filmes... Escolher os melhores amigos, namorados e eventuais ficantes poupando-se da promiscuidade... Tudo isso requer um repertório prévio, de modo que se saiba o que buscar e onde.

Quando não se detém adequado conhecimento a cerca de questões básicas da vida, a única alternativa será aprender apanhando... Muitos não terão sorte, ou tempo para aprender, porque morrerão na  primeira pancada. No entanto, um aprendizado consistente, continuado, sustenta qualquer personalidade, nos embates da vida, e é capaz, até, de curar males psíquicos e físicos.

Reconhecer, em si, o espírito, a vida além do corpo, é crucial! Porque há valores que precisam ser cultivados, regras de respeito aos outros e a si mesmo, pregadas por diferentes religiões: não fazer mal a si mesmo e não fazer ao próximo o mal que não deseja para si.

É um preceito básico que precisa ser levado em conta quando se faz escolhas. É uma questão de boa educação.

Contudo, o corriqueiro são as situações opostas, na vida privada, tanto quanto no plano político, em que um indivíduo faz mal a coletividades simplesmente para satisfazer caprichos pessoais. E que caprichos tolos... amealhar montanhas de dinheiro, gastar desbragadamente, exibir luxo e poder...

Nossos políticos, ao ostentar riquezas produto de enriquecimento ilícito, exibem as próprias misérias e suas escolhas infelizes... Tanto quanto uma mulher, que exibe o corpo modelado por cirurgias plásticas, em trajes de piriguete, ou um homem que exibe a piriguete como troféu. Que repertório pequeno, quanta mesquinharia...

Educação? Zero. Espiritualidade? Adormecida.

sábado, 26 de novembro de 2011

Inteira liberdade e independência? Nem tanto...

É ilusão imaginar que se possa escrever, e publicar, com "inteira liberdade e independência"... A "inteira liberdade..." é adstrita a consequências eventualmente provocadas pelo que se escreve.
Quando decidi excluir o blog, que tinha por tema protestar contra a corrupção, o fiz por recear algum tipo de consequência. Entretanto, tudo que escrevi, em mais de trezentas postagens, foram somente comentários onde expunha, o mais didaticamente possível, os meandros de atos de gestão contaminados pela corrupção; e os mecanismos de controle, legalmente vigentes, pelos quais teria sido possível, ao Poder Público, impedir a concretização do mal feito.

Meu ponto de partida eram, sempre, acórdãos publicados pelo Tribunal de Contas da União e respectivos relatórios de auditoria onde se comprovava a  malversação escandalosa do dinheiro público. Ou seja, não era, eu, a responsável por qualquer denúncia (Haja coragem!); apenas esmiuçava indigestos relatórios técnicos, tentando tornar o assunto palatável. Mesmo assim, a certa altura, percebendo que  fazer "caixa dois", com superfaturamento e repasses de recursos públicos a fundo perdido, tornara-se medida corriqueira, do tipo "os fins justificam os meios", optei por excluir meus artigos.

Afinal, sou, somente,  uma cidadã indignada, não tenho o suporte de uma instituição com um departamento jurídico capaz de responder a uma eventual interpelação. Melhor prevenir porque, em 40 anos de Serviço Público, meu único patrimônio é a experiência.

E há um problema de fundo, nesse cenário de corrupção, que é a arrogância, a desinformação e a incompetência. E, um indivíduo arrogante que se julgue atingido em sua vaidade, reagirá, antes, pelo orgulho ferido do que por vergonha do ato praticado; e a retaliação não se fará esperar.

Corruptos arrogantes, arrogantes honestos,  ingênuos desinformados embriagados pela proximidade com o poder e que não conhecem absolutamente nada de administração pública...Tem razão um ex-colega de trabalho, piadista, que vivia repetindo: "Tem gente que acha bonito ser feio."  E eu completo: tem gente que se compraz na ignorância.

Agora mesmo, vimos, no noticiário, um ministro quase em lágrimas, se dizendo atacado, no episódio da substituição do BRT pelo VLT, ou seja, um projeto de 489 milhões daria lugar a um projeto de 1,2 bilhão...E não se pode questionar?

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O signo de gêmeos: inconstância, curiosidade, comunicação, flexibilidade...

Sou uma blogueira bissexta, embora tenha muito a dizer...
Como geminiana típica, sou viciada em informação (curiosidade é o meu nome rrrssss). E gosto de compartilhar, de me expressar, aconselhar... Às vezes, acabo bancando a "sabe tudo". E colho antipatias (Quem ela pensa que é?).

Assim sendo, a possibilidade de escrever sobre qualquer coisa, com inteira liberdade e independência, seria fascinante para quem sente a necessidade de extravasar o pensamento. Mas, não sei bem porquê, não sou constante neste espaço, releio as postagens e me acho pretensiosa, chata, sempre reiterando o papel salvador da educação, mesmo em postagem que tinha por alvo reclamar dos preconceitos sofridos, que publiquei no final do ano passado. Provavelmente, não foi lida por ninguém, quem sabe, agora...

MATURIDADE E FLEXIBILIDADE

Um cabelo branco aqui, outro ali, umas rugas, uns sulcos... Maturidade chegando, alguns privilégios, muitos estereótipos, muito preconceito a ser enfrentado. É que pessoas jovens, que pena, se apegam a algumas ideias com pouquíssima reflexão. E não é de agora e nem se pode culpar a atual geração de jovens. Na verdade, crenças vão sendo transmitidas, de pais para filhos; e, tão logo esses filhos se tornem adultos, se portarão, frente à geração de seus pais, com igual carga de preconceitos.

Eu me lembro que, na década de 80, quando decidi voltar à Faculdade, um dos professores indagou a idade de todos os alunos e há quanto tempo estavam longe dos estudos. Ao ouvir-me, sentenciou: você terá que se esforçar muito... Não é para te desanimar, não... mas...

Imagina se eu me desanimaria com tamanha sandice... E eu nem  havia completado os 40.
Mais tarde, já em pleno século 21, quando me candidatei a uma vaga em uma grande empresa de telecomunicações, ouvi: vai ser difícil, a empresa não contrata maiores de 50. Difícil, seria qualquer dos concorrentes, menores de 30, conhecerem tudo o que eu sabia, e sei, sobre a minha área. Por isso, fui selecionada.
Aos sessenta, de volta ao mercado, percebo a desconfiança e, paradoxalmente, a confiança que desperto. Se, por um lado, a tendência é acreditar que alguém com 30 anos de experiência vá superar as expectativas, por outro lado, há os que se permitem duvidar de quem traz as marcas do tempo no rosto, como se todo o nosso conhecimento estivesse superado, desatualizado... ou seja, teríamos passado uma parte da vida encerrados em uma espécie de cápsula do tempo, a margem dos acontecimentos! Pura tolice, puro preconceito contra os mais velhos.

Um indivíduo jovem pode estar totalmente desatualizado caso viva isolado dos acontecimentos, caso não tenha interesse suficiente pela própria profissão, caso não tenha compromisso com o próprio trabalho.
O que eu acho quase cômico é que noto, nas entrelinhas e nos entreolhares, a incredulidade dos que me ouvem referir legislação com idade superior a 40 anos. É a ignorância de adultos jovens frente à legislação que, por dever de ofício, deveriam conhecer e aplicar. E, também, a falta de cultura geral pois quando se trata do Direito, uma pessoa razoavelmente bem informada jamais faria esse tipo de associação, inferindo que alguém com mais de 60 cita normas antigas por desconhecer normas atuais.

No Direito, quanto melhor a norma, por mais tempo se manterá. Mas os ignorantes, provavelmente, desconhecem esse princípio,  não sabem que a constituição inglesa e a americana são centenárias; e que o nosso código penal data de 1940! Não sabem que a sucessão de leis e de medidas provisórias resulta, não de um imperativo ditado pela necessidade de modernizar, mas da falta de habilidade em construir normas flexíveis que atravessem o tempo se ajustando  a novas realidades.

Pessoas que não se educam, velhos ou jovens, se refugiam nos preconceitos herdados, se comprazem em ser ignorantes. E a educação institucional, infelizmente, contribui para sedimentar esses preconceitos já que não trabalha para demovê-los ou sequer os identifica. Fazer o quê? O jeito é se armar de paciência, paciência que só a maturidade confere. E torcer por uma melhor educação.

sábado, 22 de janeiro de 2011

As parafernálias tecnológicas ainda são necessárias

Hoje, fui a exames que fazem parte da rotina das mulheres adultas, principalmente das que já chegaram à terceira idade. E, mais uma vez, me vi remoendo contra a parafernália da Medicina, tanta tecnologia e tão pouca saúde. Mas, tenho certeza de que se aproxima o dia em que usaremos os recursos naturalmente disponíveis, em nossas mentes, e deixaremos de praticar essa espécie de suicídio cotidiano: sem stress, sem açúcar, sem carne vermelha, sem poluição, sem agrotóxicos....E a Medicina será básica e preventiva, os Psicólogos, nutricionistas, hipnoterapeutas, os homeopatas exercerão papel de destaque. E, principalmente, os professores, que serão nossos guias, ensinando, desde a mais tenra idade, regrinhas simples e fundamentais, essenciais à manutenção dessa máquina que é habitada por nossos espíritos.

Drogas lícitas e ilícitas para forjar felicidade? Não precisaremos, saberemos buscar bem estar naturalmente, acionando nossos mecanismos de produção de serotonina e dopamina. Anti-depressivos para quê?

De qualquer forma, o meu mundo é esse, meu tempo é agora, esse futuro ainda não chegou...então, meus protestos se limitam a elucubrações e, anualmente, sigo a mesma cartilha, me submeto obedientemente, às parafernálias tecnológicas que vão dizer se tenho, ou não, saúde.

Saí, cedo, querendo me livrar logo dessa obrigação. E tudo ficou pela metade pois o inusitado aconteceu: o meu Plano de Saúde, que libera as requisições, por telefone, alegou que não poderia autorizar os exames pois, aos sábados, não há médicos para realizar perícia. E desde quando, indago eu, se faz perícia por telefone? E, sobretudo, exames de rotina, exigidos periodicamente a quem já passou dos 50, prescindem de perícia! Bastaria checar o tempo transcorrido desde a última requisição! Mesmo com o contratempo, nem posso queixar-me; afinal, sou privilegiada, não dependo da Rede Pública.

Ainda assim, não hesito em remoer, em criticar: toda essa tecnologia que permitiu o rápido contato entre a Clínica e a Central 0800 do Plano (fax, teleones, emails...) tudo inútil porque a operadora do Plano não domina o  idioma pátrio e desconhece o signifiicado da palavra "perícia"...E não tem discernimento para perceber que perícias não são necessárias a exames de rotina... E não sabe interpretar o manual que, provavelmente, utiliza ao atender os contatos da rede credenciada. A melhor tecnologia é degradada quando o ser humano que a utiliza é um analfabeto funcional.

Na saída, uma velhinha, me fez a estranha pergunta: quem vem de Goiânia para, aqui, nessa entrada? Ela estava aguardando alguém e não sabia em que ala do edifício deveria esperar. Sugeri que entrasse em contato telefônico e ela respondeu que não tinha.

Enquanto os mais jovens dominam qualquer engenhoca moderna, entre os mais velhos, muitos ainda resistem e alegam, tolamente, que sempre viveram bem "sem essas coisas". A preguiça mental não é monopólio dos jovens avessos ao domínio do idioma; a mesma preguiça aflige os mais velhos que se recusam a usar qualquer tecnologia.

Se o nosso tempo é agora, porque rejeitar esses recursos que, nesse mundo mais complexo, facilitam a vida? Pareço contraditória, defendendo e atacando a tecnologia?

O valor de uma escritora

Li, na Revista Época desta semana, reportagem sobre a escritora Thalita Rebouças que, aos 36 anos, já se aproxima da marca de um mihão de livros vendidos. Ela conta que, em sua primeira Bienal, subiu em uma cadeira chamando a atenção dos presentes para a sua obra. Ela própria se promoveu, muito justamente pois, afinal, quem publica quer ser lido. Não há espaço para modéstia ou insegurança quando o objetivo é comunicar. O artista e o escritor precisam, necessariamente, se expor.

Eu, aqui, muito longe de ser uma escritora, também almejo ser lida. E me surpreende constatar que este blog tem leitores fora do país. As estatísticas do Blogger exibem números modestos, compatíveis com meu desempenho, tão irregular, semanas e semanas sem postar nada. É que sou uma dona de casa muito ocupada...rrrssssss...

Hoje, recebi um email sobre o valor de uma dona de casa que vale resumir: o marido chega em casa  e encontra os filhos sujos, ainda de pijama, soltos  na rua. Entra e se depara com um cenário de desordem por toda a casa: brinquedos espalhados, restos de comida, geladeira aberta, TV alta, pia cheia de louça... Ele começa a entrar em pânico e se pergunta o que teria acontecido à esposa. Chega ao quarto e a surpreende deitada, ainda de pijama, lendo um livro... Ela, então, lhe diz, provocativa: todos os dias, quando você chega do trabalho, pergunta: afinal, o que você fez o dia inteiro? E ela completa: Bem... hoje eu não fiz nada.

Consciente da importância do meu trabalho no lar, não me sinto frustrada por essa limitação de tempo...
Mas que dá uma inveja da Thalita... não vou negar. Começando pelo fato de que, ela, desde cedo reconhecendo a própria vocação e talento, concentrou-se nesse propósito, não se dispersou, acreditou em si mesma.

Infelizmente, a escola não tem sido capaz de auxiliar o estudante na identificação de habilidades e talentos. Então, há um grande desperdício de recursos e muitos são direcionados por modismos, sufocando interesses naturais, enterrando seus talentos, como na parábola de Jesus, Evangelho de Mateus.

Escrevendo, aqui, ainda que esporadicamente, uso a minha habilidade com a escrita...Tento não enterrar um dos meus talentos. Afinal, postar na Internet é mais que subir na cadeira...rrrrrrrrrrrrrrrrsssssssssss

sábado, 25 de dezembro de 2010

Contra o convencionalismo, a favor de Ivan Illich. Por quê?

No post anterior, relembrei Ivan Illich. Esse pensador me impressionou de forma definitiva quando, ainda na Faculdade, por proposta da professora da cadeira de Metodologia Científica, fiz a leitura, resumo e comentário da sua obra mais famosa: Sociedade sem Escolas.

Não fosse a zelosa professora Maria Bueno e eu estaria, até hoje, ignorando conceitos arrojados que me ajudaram a confirmar muito do que eu já intuía e a me desvencilhar, de vez, de preconceitos e equívocos sobre a minha suposta incapacidade e sobre as capacidades de profissionais e de suas instituições. Valeu por uma terapia. Ou, quem sabe, mais que uma terapia.

Na época, eu já era mãe de quatro crianças, dois deles portadores de alergias severas. Lutando com o uso da medicação convencional para essa patologia (que, ainda hoje, é o que há: corticóides e aminofilina), eu começava a descrer da Medicina. Sempre buscando a transcendência, eu assinava uma revista chamada "Planeta" e, ali também, fui surpreendida por idéias tão arrojadas quanto as de Illich: Por que o homem é o único animal que bebe leite a vida inteira? Por que beber leite de outros animais? E eu, comigo mesma: Não deveria beber???!!!!! Trocamos o consumo da mandioca (herança indígena) pela ingestão do venenoso trigo branco... E que mal haveria , no pãozinho de cada dia, pensava eu com espanto!?

Era o início da década de 80, estávamos muito distantes das liberdades dos tempos presentes e dos avanços da Nutrição. Aliás, tudo o que se referisse ao tema alimentação estava restrito ao âmbito doméstico, portanto, alvo de menosprezo, coisas de mulher. Mas, tive a sorte de ler os artigos de um médico, Dr. Márcio Bontempo, um homem que ousava pensar, naquela revista despretensiosa, a "Planeta".

Eu me recusava a aceitar quando alguns profissionais de saúde teimavam em me fazer acreditar que o resultado de uma operação dois mais dois não era quatro. Ou seja, eu via os efeitos devastadores da aminofilina no organismo do meu filho que me dizia: mãe, eu estou triste, mãe, estou cansado... não sei porque eu estou triste, mole...

O remédio provocava depressão na criança... O Pediatra dizia que não. Eu preferi acreditar no que via e desistir da medicação.

E, enquanto meus filhos cresciam, minha experiência se consolidava: é difícil lidar com profissionais diplomados, principalmente da saúde, porque descartam o outro como ser pensante, porque negam evidências ao invés de admitir que não tem todas as respostas. Na educação, pude testemunhar a forma como respostas criativas dos meus filhos eram descartadas como erradas por variados professores, enquanto cursavam o ensino de 1º grau.

Portanto, com esse sentimento de desconforto, resultado de experiências tão negativas, conhecer o pensamento de Ivan Illich foi, para mim, libertador.

E, daí, surge o meu interesse pelo tema "saúde e educação" e a vontade de tratá-los, numa visão integrada: a saúde vem da alma e a educação é que a constrói.

Quem é o doente? É quem persegue o próximo, é quem rotula e exclui...é todo aquele que, movido pela própria rigidez e conservadorismo, ultrapassa os limites daquilo que alega estar defendendo: seja a saúde, seja a educação, a decência, a ética, a moral e os bons costumes...

A propósito, vale lembrar a postagem anterior, sobre Júlio Assange:  invocar sigilo de estado para ocultar ações criminosas, ou duvidosas, não seria imoral é doentio? Quem tem esse pecado, ou doença, não poderia atirar pedras em Julian Assange. Precisa, fundamentalmente, curar-se, ou melhor, educar-se...

Tanto é verdade que a educação condiciona a saúde que, hoje, quando se busca o controle de peso, a palavra chave dos nutricionistas é reeducação. E, se alguem infarta, o cardiologista logo propõe a formação de novos hábitos ou seja: reeducação. Aos deprimidos, a ciência já recomenda a prática de atividades físicas, que estimulam a produção de dopamina e serotonina, visando a redução gradativa de medicamentos.

Fica cada vez mais claro que o uso de um arsenal de remédios e a repetição de exames sofisticados e dispendiosos, podem ser suprimidos quando as pessoas são orientadas a cuidar de si mesmas.

E a nossa suposta incapacidade, frente à pseudo-proteção das instituições, começa a ser questionada, felizmente. Até porque, o Estado já se sabe incapaz de prover cuidados para a massa sempre crescente de doentes.
A razão, portanto, sempre esteve com Illich quando defendia a autonomia do cidadadão contra a supremacia das instituições.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Julian Assange

Julian Assange ousou desafiar os poderes estabelecidos publicando segredos muito bem guardados, vazando documentos sobre crimes de guerra que teriam sido cometidos pelo exército americano, no Afeganistão e no Iraque. Assange, criador do WikiLeaks, site que publica, anonimamente, informações confidenciais vazadas de governos e de empresas, está em prisão domiciliar, na Inglaterra.

Os podres estão expostos e quem os guardava faz o que os donos do mundo, em todos os tempos, sempre fizeram aos rebeldes: persegue.

Leio rapidamente essas notícias e penso no que li, há duas décadas, em um livro chamado "Sociedade sem Escolas", do pensador Ivan Illich, um outro radical. Illich falava da dependência subserviente do cidadão  às instituições (principalmente à escola) que, gradativamente, subtraíram de nós a nossa capacidade de subsistir por meios próprios, de pensar com mínima autonomia, de expressar a própria criatividade, de ousar seja lá o que for. E ai dos que ousam! Se estão em situação de trabalho, logo são sabotados, sofrem assédio, são desacreditados pelos medíocres, sob os olhos dos donos e de gerentes que, um dia, certamente, foram ousados.

Illich foi um visionário que enxergou algo bastante óbvio, como é próprio dos visionários. Enxergou o que é conhecido dos Psicólogos: a educação institucional, com seus esquemas de "certo x errado" limita e cerceia a criatividade. Com efeito, a escola pode ser intimidadora, pode aniquilar, além da auto-estima, a capacidade crítica e a própria capacidade de aprender uma vez que, vigorando a crença de que somente a escola proporciona o aprendizado, as pessoas não são estimuladas a buscar o auto-aprendizado. 

E, agora, que Assange ataca duramente institituições poderosas usando um veículo que, por incrível que pareça, foi pensado por Illich (uma rede e tecnologia), quem sabe essa discussão, do início dos meados do século passado, venha a ser retomada.

Illich pregava a criação de redes de aprendizagem apoiadas em tecnologias avançadas o que, nos dias presentes, se faz corriqueiro embora coexista, ainda, com os antigos modelos de escola. Assange também não é amigo de instituições modernas que, revestidas de poder pelo cidadão, usam esse poder para acobertar práticas criminosas. Para quê segredo? A quem serve o sigilo? Quando o sigilo é necessário e com que finalidade?

Instituições muito poderosas, se sobrepondo ao interesse coletivo, servem a quem?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Voltando ao foco: a saúde vem da alma

Apesar de gostar de escrever e de compartilhar vivências e opiniões, nem sempre posso postar...E as boas idéias desaparecem, voltam à origem. E acabo desistindo, abandonando esse projeto de escrever sem qualquer pretensão, a não ser a de usufruir o prazer de brincar com as palavras, de tentar construir bons textos a partir da observação de questões que interessam a todos os que buscam a transcendência, o viver um pouco mais além das aparências: a saúde vem da alma, a educação é tudo.

Estive ocupada, dedicada a um trabalho temporário, no último ano. Hoje, foi o último dia.

No ano anterior, quem tomou o meu tempo foi a minha adorável netinha, de 20 meses de idade. E, meses antes, ataquei de dona de casa, durante a gravidez e a licença gestante da minha empregada.

O meu batente, agora, é aqui...conversando comigo mesma e com quem mais quiser ouvir, deixando de lado a política: urnas abertas, votos contados, presidente e governadores eleitos e, logo, empossados, assunto superado.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Não gosto que me enganem...

O famoso bordão "Me engana que eu gosto", tema da MPB na voz do sambista Zeca Pagodinho, cabe como uma luva a muitas situações. É aquele sintoma, desde sempre conhecido, em que o sujeito, por pura acomodação, vai se ajustando a conveniências, comprando meias verdades...

"O pior cego é aquele que não quer ver?". É um outro bordão, sem ponto de interrogação... e com rima muito pobre... rrrrrrrrrrsssssssss

Basta um clique na wikipedia, basta um bom livro de história ou, mesmo, um pouco de memória e a luz de muitas verdades desponta. Mas, quem se importa com os fatos quando a luz que refulge é a da propaganda enganosa, vendendo ilusões, exibindo  números que atestam um desempenho desmentido pela realidade?

O que importa? Um crédito fácil proporcionando a aquisição de bens duráveis, inclusive automóveis entulhando e poluindo? Saneamento, saúde, educação básica, transporte coletivo e segurança pública seriam bens secundários?

O governo anterior, reponsável pela estabilização econômica, é sistematicamente acusado pelo Governo Lula pelos baixos investimentos em diversos setores. Essa afirmação é da mais absoluta má fé. "Investimento público" não combina com inflação galopante. Ou combina?

Talvez tenhamos que enxergar tudo invertido para crer que não se pôde investir, ao longo dos oito anos do Governo Lula, nesses setores mais críticos, verdadeiramente capazes de trazer bem estar coletivo... E aplaudir esse desempenho mediocre. Não foi possível, apesar dos números favoráveis da Economia?

Crescimento do PIB com saúde, transporte público e ensino público decadente...

Então, os que vivem de ilusão, adoram uma pregação, curtem um bom transe hipnótico,  façam bom proveito. Mas lembrem-se de que, se a questão é sair da realidade, um bom porre prejudica menos que uma fé cega em qualquer "salvador" de plantão.

E que Deus nos ajude e nos livre dos maus pregadores, dos marqueteiros, dos estelionatários e de todos esses cínicos, que mentem, audaciosamente, sob a luz dos refletores, tão certos, estão, da complacência do povo.

E, depois, ainda há os que reclamam dos candidatos de discurso único: educação e informação são remédios perfeitos para curar essa cegueira demente e resgatar a saúde dessa multidão de iludidos e despoluir e descontaminar o meio ambiente afetado pelo mau caratismo dos candidatos que sequer tem bandeira... E ainda se orgulham disso!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

No meu tempo, no seu tempo...

As pessoas que, como eu, tem no currículo algumas décadas, frequentemente, iniciam diálogos com a frase "No meu tempo...", enquanto aludem ao que seriam as desvantagens dos dias presentes. E essas desvantagens, quase sempre, estão situadas no campo da moral e da ética.

Além de testemunha dos famosos "bons tempos", todos os que estudaram um pouco mais sabem que a realidade sempre foi dura para os mais pobres, para os mais fracos e para as minorias.

Se não rejeitaram todo o conteúdo de História do Brasil e de História Geral, ministrados no extinto Curso Primário e Ginasial, souberam que a ausência de direitos era a regra, que a tortura era uma prática, que a escravidão era normal já que categorias inteiras de criaturas, tidas por inferiores, ou perdedoras, eram subjugadas pelas nações e grupos mais fortes.

Os que lêem a bíblia sabem que a nação de Israel foi escravizada, ao longo da história, por diversos povos. Mas, dentre esses, a maioria enxerga a questão apenas em sua dimensão religiosa e sequer imagina que a escravidão era uma prática comum, um dos frutos da crueldade humana. Quando assistem, na TV,  notícias sobre o combate ao trabalho escravo,  sobre o tráfico de mulheres e de seres humanos em geral, provavelmente se espantam atribuindo esse fato a sintoma de uma doença do mundo moderno.

As atrocidades cometidas, no presente, em nome de religiões não superam às práticas passadas, em covardia, crueldade e dimensão. Basta lembrar a dizimação da cultura indigena e africana, imposta pela Igreja Católica no continente sul americano. Ou as fogueiras da inquisição, na Idade Média. Ou a prática da lapidação e da crucificação, que muitos ignoram  mas era um castigo corriqueiro.

E o assassinato em família? Era comum. Hoje, quando o noticiário nos defronta com filhos que  matam pais ou irmãos, ou a família toda, por herança, nos escandalizamos. E não é para menos. Mas é um erro acreditar que esse é um mal do mundo moderno. Muito pelo contrário, era um crime frequente em famílias em que se disputava o poder de governar.

E quanto ao mundo da política? Pobres e mulheres não votavam. O voto era restrito a homens que comprovassem uma certa renda.

E há muitos mais. Hoje, é possível buscar a verdade. Só permanece na ignorância quem se habituou a se limitar, acreditando em falsidades e em meias verdades, quando basta um click para descobrir e um pequeno esforço de raciocínio para avaliar as descobertas comparando-as às "revelações" de púlpitos e de palanques. Mesmo aqueles que "fugiram" da escola, ou que não tiveram acesso a ela, têm instrumentos formidáveis de informação à sua disposição. E, ainda que a escola seja "conservadora e limitante", é um bom ponto de partida para quem almeja pensar de forma mais independente, evitando rótulos e clichês.

domingo, 29 de agosto de 2010

Mulheres, homens... gays ou héteros...Seres humanos!

Os tempos mudam, os clichês e chavões pelos quais muitas pessoas se norteiam, também mudam.Ou seja, não nos desvencilhamos dos clichês, apenas os substituímos.

Portanto, não se pode contar com uma mudança de atitude, onde passemos a reconhecer e a rejeitar certos padrões de pensamento. E que padrões! Limitadores porque imobilizam, impedem o pensamento de fluir com liberdade, freiam a marcha do progresso, se opõem, até, à ciência.

Não vai longe o tempo em que "pérolas de sabedoria" desfilavam na boca de muita gente tida por intelectual: "Ecologia é coisa de viado", "lugar de mulher é na cozinha", "um homem não se senta no banco do carona em carro dirigido por mulher", "um filho gay ou uma filha solteira grávida, não podem partilhar a vida da família"...

Por causa desses padrões, solidamente plantados, considerável parcela da humanidade foi mantida em exclusão, não teve chance de contribuir com os talentos mais típicos de sua experiência e condição.

No século passado, quando a mulher começava a ter acesso às universidades e ao mercado de trabalho, era rotineiro se ouvir que não eram aptas para as áreas ligadas às ciências exatas, que mulheres não eram dotadas de raciocínio matemático: seres essencialmente maternais, deveriam buscar áreas de acordo com esse perfil.

Disseminando-se esse tipo de crença, restringia-se o acesso das mulheres a cursos que não fossem os de enfermagem, serviço social e magistério. E quando uma mulher ousava discordar desse molde, dessa espécie de forma, era logo rotulada, de rebelde, sapatão ... E, quando bem sucedida no trabalho, sempre levantaria suspeitas quanto à sua conduta sexual: será que dormiu com o patrão?

Preconceitos semelhantes são impostos aos que tem conduta sexual diferenciada e, historicamente, gays tem sido compelidos ao exercício de atividades tidas por femininas: na área de estética, artes, decoração, moda... Interessante é que somos, todos, levados a acreditar que gays devam se circunscrever a esse nicho, porque eles são como as mulheres, sensíveis... E a palavra "sensibilidade", nesse contexto, é sempre empregada de forma pejorativa.

Quando é que vamos procurar pensar com mais liberdade? O mais provável é que gays, assim como as mulheres, exercendo profissões fora desses nichos, vão desempenhá-las com o mesmo sucesso que os homens hetero, bastando que se lhes dê a chance de serem tratados como seres humanos que são, independentemente de sua inclinação sexual.

Já se nota, hoje, que algumas construtoras dão preferência à contratação de mulheres porque elas são mais caprichosas, mais detalhistas. Mas, há pouco menos de 30 anos, quem apostaria na presença de mulheres em canteiros de obras?

E os gays? Os que assumem publicamente a condição, continuam excluídos, marcando presença nos mesmos setores...

É interessante notar que a questão sexual, a par das religiões praticadas no mundo, mal compreendida e transformada em tabus de toda a sorte, é o pano de fundo de todo o atraso, de todas as limitações e atos de crueldade praticados contra tantos inocentes, por aqueles que se acreditam investidos de autoridade para impor um falso padrão moral: não raro, aqueles que perseguem e maltratam seus semelhantes é que são os portadores de desvios no comportamento sexual! Trata-se, na verdade, de um "padrão moral" ditado por recalques e desvios que poderiam ser curados com uma boa terapia.

Ou seja, doente é quem persegue o próximo cerceando a sua liberdade e oprimindo-o, subtraindo-lhe oportunidades de educação e de trabalho.

sábado, 28 de agosto de 2010

Maturidade e flexibilidade

Um cabelo branco aqui, outro ali, umas rugas, uns sulcos... Maturidade chegando, alguns privilégios, muitos estereótipos, muito preconceito a ser enfrentado. É que pessoas jovens, que pena, se apegam a algumas ideias com pouquíssima reflexão.E não é de agora e nem se pode culpar a atual geração de jovens. Na verdade, crenças vão sendo transmitidas, de pais para filhos; e, tão logo esses filhos se tornem adultos, se portarão, frente à geração de seus pais, com igual carga de preconceitos. 

Eu me lembro que, na década de 80, quando decidi voltar à Faculdade, um dos professores indagou a idade de todos os alunos e há quanto tempo estavam longe dos estudos. Ao ouvir-me, sentenciou: você terá que se esforçar muito... Não é para te desanimar, não... mas...

Imagina se eu me desanimaria com tamanha sandice... E eu nem  havia completado os 40.

Mais tarde, já em pleno século 21, quando me candidatei a uma vaga em uma grande empresa de telecomunicações, ouvi: vai ser difícil, a empresa não contrata maiores de 50. Difícil, seria qualquer dos concorrentes, menores de 30, conhecerem tudo o que eu sabia, e sei, sobre a minha área. Por isso, fui selecionada.

Aos sessenta, de volta ao mercado, percebo a desconfiança e, paradoxalmente, a confiança que desperto. Se, por um lado, a tendência é acreditar que alguém com 30 anos de experiência vá superar as expectativas, por outro lado, há os que se permitem duvidar de quem traz as marcas do tempo no rosto, como se todo o nosso conhecimento estivesse superado, desatualizado... ou seja, teríamos passado uma parte da vida encerrados em uma espécie de cápsula do tempo, a margem dos acontecimentos! Pura tolice, puro preconceito contra os mais velhos.

Um indivíduo jovem pode estar totalmente desatualizado caso viva isolado dos acontecimentos, caso não tenha interesse suficiente pela própria profissão, caso não tenha compromisso com o próprio trabalho.

O que eu acho quase cômico é que noto, nas entrelinhas e nos entreolhares, a incredulidade dos que me ouvem referir legislação com idade superior a 40 anos. É a ignorância de adultos jovens frente à legislação que, por dever de ofício, deveriam conhecer e aplicar. E, também, a falta de cultura geral pois quando se trata do Direito, uma pessoa razoavelmente bem informada jamais faria esse tipo de associação, inferindo que alguém com mais de 60 cita normas antigas por desconhecer normas atuais.

No Direito, quanto melhor a norma, por mais tempo se manterá. Mas os ignorantes, provavelmente, desconhecem esse princípio,  não sabem que a constituição inglesa e a americana são centenárias; e que o nosso código penal data de 1940! Não sabem que a sucessão de leis e de medidas provisórias resulta, não de um imperativo ditado pela necessidade de modernizar, mas da falta de habilidade em construir normas flexíveis que atravessem o tempo se ajustando  a novas realidades.

Pessoas que não se educam, velhos ou jovens, se refugiam nos preconceitos herdados. E a educação institucional, infelizmente, contribui para sedimentar preconceitos já que não trabalha para demovê-los ou sequer os identifica. Fazer o quê? O jeito é se armar de paciência, paciência que só a maturidade confere. E torcer por uma melhor educação.